sexta-feira, 6 de novembro de 2026
QUANDO A HISTÓRIA ATRAVESSA FRONTEIRAS
A virada brasileira, a força das ruas e as transformações políticas que movimentam o mundo
Por Andrea Dias — Historiadora, Educadora e Terapeuta
6 de novembro de 2026
Existem momentos na História em que acontecimentos aparentemente separados começam a revelar questões comuns.
Em outubro e novembro de 2026, o mundo assistiu a uma sucessão de mobilizações populares, eleições e crises políticas que merece ser estudada com atenção.
No Brasil, uma eleição presidencial terminou com uma virada histórica no segundo turno. Na Sérvia, um movimento nascido de protestos estudantis derrotou um partido que dominava a política nacional havia anos. Nos Estados Unidos, o Partido Democrata conquistou o controle das duas casas do Congresso. Na Europa, manifestações de jovens e trabalhadores ganharam força. No Paraguai, uma crise bancária provocou protestos e colocou em questão a continuidade de um governo.
É natural observarmos esses acontecimentos e perguntarmos se estamos diante de uma transformação internacional mais ampla.
Como professora de História, considero essa pergunta fundamental.
Mas precisamos compreender que acontecimentos próximos no tempo não são necessariamente produzidos uns pelos outros.
A História exige investigar as causas, os interesses, as condições sociais e os processos anteriores.
O que chama a atenção não é apenas a sucessão das datas, mas o protagonismo adquirido pela participação coletiva em diferentes sociedades.
O Brasil e a virada de 25 de outubro
Em 4 de outubro de 2026, o primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras terminou com Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva.
A diferença parecia estabelecer um cenário eleitoral difícil para o presidente.
Entretanto, durante as três semanas seguintes, ocorreram mobilizações que envolveram movimentos estudantis, artistas, trabalhadores, organizações políticas, lideranças sociais e milhões de cidadãos.
As ruas voltaram a ocupar posição central na disputa.
As redes digitais adquiriram importância extraordinária.
O movimento conhecido como Exército do Lula, organizado por André Janones, reuniu milhões de participantes no WhatsApp e tornou-se um dos fenômenos de comunicação política mais comentados daquele período.
Mas houve também pessoas que saíram de casa, participaram de manifestações e procuraram convencer outros cidadãos por meio de conversas e atividades coletivas.
Em 25 de outubro, Lula venceu o segundo turno com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos.
Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.
Foi a primeira vez, nas eleições presidenciais brasileiras sob o atual sistema de dois turnos, que um candidato terminou o primeiro turno atrás de seu adversário e venceu a votação final.
A importância histórica desse resultado não se limita à trajetória pessoal do presidente.
A eleição também demonstrou a capacidade de reorganização de forças políticas, movimentos sociais e eleitores.
Entretanto, o resultado apertado revelou um país profundamente dividido.
A vitória de uma candidatura não elimina as convicções dos milhões de cidadãos que escolheram outra.
A democracia continua exigindo diálogo, respeito aos direitos e fiscalização permanente dos governantes.
Quando um símbolo nacional atravessa fronteiras
Poucos dias depois da eleição brasileira, começaram a aparecer imagens que chamaram minha atenção.
O gesto do “L”, associado à campanha de Lula, passou a ser reproduzido por lideranças e participantes de movimentos políticos fora do Brasil.
Em 26 de outubro, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum realizou o gesto durante uma entrevista coletiva.
Na Espanha, lideranças progressistas, incluindo Ada Colau, utilizaram o símbolo em manifestações e eventos políticos.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, interpretou a vitória brasileira como um possível sinal de reorganização internacional das forças progressistas.
Na França, movimentos políticos também passaram a observar estratégias de mobilização digital utilizadas no Brasil.
Jean-Luc Mélenchon adotou iniciativas de comunicação por WhatsApp que foram comparadas ao modelo brasileiro.
Na Argentina, organizações peronistas passaram a desenvolver estratégias digitais semelhantes.
Também houve registros do gesto em manifestações na Itália e em outros países.
Em 5 de novembro, o próprio Lula comentou publicamente a circulação internacional do símbolo.
É interessante observar como um gesto simples pode adquirir novos significados conforme atravessa fronteiras.
Historicamente, símbolos políticos sempre desempenharam funções importantes.
A Revolução Francesa popularizou representações de liberdade, cidadania e transformação política.
Movimentos trabalhistas utilizaram bandeiras, cores, músicas e gestos para construir identidades coletivas.
Movimentos feministas, antirracistas e de defesa dos direitos civis também desenvolveram símbolos reconhecidos internacionalmente.
Esses símbolos não substituem programas políticos ou propostas concretas.
Mas podem transmitir pertencimento e reconhecimento entre pessoas que compartilham determinadas aspirações.
O “L” de Lula continua sendo um símbolo partidário e eleitoral brasileiro. Entretanto, sua utilização em outros países demonstra que determinados movimentos passaram a associá-lo a uma experiência de mobilização política que consideram inspiradora.
Isso não significa que todos aqueles que fazem o gesto compartilhem exatamente os mesmos objetivos.
Tampouco significa que o símbolo represente universalmente a liberdade.
Seu significado depende de quem o utiliza e do contexto.
Mas sua circulação internacional já constitui um fenômeno político e cultural digno de registro.
A Sérvia: estudantes e a transformação de uma insatisfação em força eleitoral
No mesmo dia em que o Brasil realizava seu segundo turno, a Sérvia também vivia uma eleição histórica.
O movimento estudantil que conquistou a vitória parlamentar havia surgido muito antes, após o desabamento de uma cobertura na estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, que deixou 16 mortos.
O episódio provocou indignação e acusações de corrupção e negligência.
Durante quase dois anos, estudantes organizaram manifestações, paralisações e ações públicas.
As mobilizações cresceram e passaram a expressar reivindicações relacionadas à transparência, à responsabilidade institucional e à democracia.
Em 25 de outubro de 2026, a lista apoiada pelos estudantes venceu as eleições parlamentares.
Os resultados definitivos atribuíram-lhe 140 das 250 cadeiras do Parlamento.
A vitória encerrou um longo período de domínio político do Partido Progressista Sérvio.
Não podemos afirmar que o resultado brasileiro provocou essa mudança, porque os dois processos eleitorais ocorreram no mesmo dia e o movimento sérvio já possuía uma trajetória própria.
Mas podemos identificar uma característica comum: a passagem da insatisfação social para uma organização capaz de produzir resultados eleitorais.
É uma experiência que merece ser estudada ao lado de outras mobilizações estudantis da História.
Os jovens não participaram apenas como espectadores.
Conseguiram transformar um movimento de protesto em uma força institucional.
Ainda será necessário acompanhar como esse grupo exercerá o poder e responderá às expectativas que mobilizou.
A conquista eleitoral representa o início de uma nova etapa, não a resolução automática dos problemas nacionais.
A Europa e as novas mobilizações
Em diferentes países europeus, manifestações se intensificaram no final de outubro e no início de novembro.
Na França, protestos reuniram pessoas insatisfeitas com o custo de vida, a situação dos serviços públicos e outras decisões governamentais.
Na Alemanha, jovens organizaram manifestações relacionadas à educação, ao futuro econômico e às prioridades políticas.
Na Itália, protestos envolveram trabalhadores e grupos atingidos pelo aumento dos custos.
Em Portugal, movimentos também discutiram o acesso à moradia e a dificuldade das novas gerações em alcançar condições adequadas de vida.
É necessário distinguir esses movimentos das manifestações que utilizaram diretamente o símbolo de Lula.
Embora tenham ocorrido em um período próximo, possuem pautas, organizações e origens próprias.
Nem todos são movimentos partidários.
Nem todos possuem a mesma orientação ideológica.
E nem todos foram influenciados pelo resultado eleitoral brasileiro.
Entretanto, mostram uma inquietação presente em diferentes sociedades.
Muitos jovens questionam a possibilidade de alcançar condições de vida semelhantes às das gerações anteriores.
O custo da habitação, a precarização de determinadas relações de trabalho, as mudanças climáticas, os conflitos internacionais e as dificuldades de acesso a serviços públicos aparecem entre as preocupações.
Essas reivindicações nos recordam que a democracia não se resume à escolha periódica dos representantes.
Também envolve a capacidade da população de expressar demandas, organizar movimentos e participar da definição de políticas públicas.
Estados Unidos: uma mudança de poder dentro das instituições
Em 3 de novembro de 2026, os Estados Unidos realizaram suas eleições legislativas de meio de mandato.
O Partido Democrata conquistou maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado.
O resultado representou uma mudança importante no equilíbrio institucional durante o governo de Donald Trump.
As análises eleitorais destacaram a insatisfação de parte dos eleitores com o custo de vida, a guerra com o Irã e diferentes decisões do governo.
Vitórias democratas ocorreram inclusive em estados tradicionalmente associados ao Partido Republicano.
O resultado não significou a saída de Donald Trump da Presidência.
Significou uma redistribuição do poder legislativo, com consequências para a aprovação de leis, o orçamento, as investigações parlamentares e a fiscalização do Executivo.
Também revelou que a escolha feita por uma população em uma eleição presidencial não determina permanentemente todas as eleições seguintes.
Os eleitores podem modificar suas decisões diante de novas condições.
Essa é uma característica importante dos sistemas democráticos.
Embora a mudança norte-americana tenha acontecido poucos dias depois da eleição brasileira, não há evidências suficientes para afirmar que foi provocada por ela.
As campanhas, as pesquisas, os problemas econômicos e os conflitos políticos norte-americanos já existiam.
Mas os dois resultados passaram a ser analisados internacionalmente como acontecimentos relevantes para a reorganização do cenário político.
O Paraguai: quando uma crise econômica alcança o centro do poder
No Paraguai, os acontecimentos de novembro possuem uma origem diferente.
Uma crise envolvendo o banco digital ueno provocou a intervenção do Banco Central e impediu numerosos clientes de acessar temporariamente seus recursos.
O problema atingiu correntistas, trabalhadores e aposentados.
As dificuldades financeiras provocaram protestos nas ruas de Assunção.
Ao mesmo tempo, vieram à tona questionamentos sobre vínculos entre integrantes da administração pública, autoridades regulatórias e o setor financeiro.
O presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia em 5 de novembro, mas, até 6 de novembro, ela ainda não havia sido formalmente aceita pelo Senado.
O Parlamento também iniciou procedimentos relacionados ao impeachment.
As acusações envolvem possíveis conflitos de interesse, interferência regulatória e outras irregularidades.
Peña nega ter cometido ilícitos, e as questões permanecem submetidas aos procedimentos institucionais e judiciais.
Aqui, novamente, precisamos evitar interpretações precipitadas.
Não existem elementos que permitam atribuir a crise paraguaia à vitória de Lula.
O episódio possui causas econômicas e políticas próprias.
Mas revela como uma crise financeira pode ultrapassar os limites do sistema bancário e atingir diretamente a confiança da população nas instituições.
Quando as economias de milhares de famílias ficam ameaçadas, as consequências deixam de ser apenas contábeis.
Tornam-se sociais, humanas e políticas.
O que todos esses acontecimentos possuem em comum?
Brasil, Sérvia, Estados Unidos, países europeus e Paraguai apresentam realidades muito diferentes.
Não vivem o mesmo regime político.
Não possuem as mesmas instituições.
Não enfrentam problemas idênticos.
E suas populações não defendem necessariamente os mesmos projetos.
Entretanto, existe uma questão que atravessa todos esses acontecimentos: a relação entre sociedade, poder e participação.
No Brasil, houve uma mobilização intensa durante o segundo turno.
Na Sérvia, estudantes transformaram anos de protestos em uma vitória parlamentar.
Nos Estados Unidos, eleitores modificaram a composição do Congresso.
Na Europa, movimentos sociais ampliaram suas manifestações.
No Paraguai, cidadãos foram às ruas exigir respostas diante de uma crise financeira.
São formas diferentes de participação, com resultados e motivações distintos.
Mas todas demonstram que as sociedades não permanecem necessariamente passivas diante das decisões de seus governantes.
A História não se move por contágio automático
Existe uma ideia que considero importante discutir.
Quando acontecimentos políticos semelhantes ocorrem em diferentes países, podemos ser tentados a imaginar que um necessariamente provocou o outro.
Entretanto, a História não funciona como uma sequência automática de dominós.
Uma mudança pode influenciar movimentos internacionais.
Um símbolo pode atravessar fronteiras.
Uma estratégia de mobilização pode ser reproduzida.
Um resultado eleitoral pode modificar expectativas.
Mas a influência precisa ser demonstrada.
Não basta que um acontecimento tenha ocorrido depois de outro.
Na História, distinguimos simultaneidade, repercussão, inspiração e causalidade.
Essa distinção é indispensável para não transformar uma interpretação interessante em uma afirmação sem comprovação.
A vitória de Lula tornou-se referência para determinados líderes e movimentos progressistas internacionais.
Isso está documentado.
O gesto do “L” passou a circular em outros países.
Isso também está documentado.
Mas os protestos europeus, as eleições sérvias, a disputa norte-americana e a crise paraguaia possuem trajetórias próprias.
O desafio intelectual é compreender tanto as conexões quanto as diferenças.
O que significa defender a democracia em um mundo polarizado?
Os acontecimentos recentes também mostram que a participação política não elimina os conflitos sociais.
Governos continuam enfrentando críticas.
Movimentos populares podem apresentar reivindicações contraditórias.
Partidos e lideranças podem utilizar símbolos semelhantes para defender propostas diferentes.
E uma vitória eleitoral não garante automaticamente a qualidade das decisões posteriores.
Direita democrática, esquerda democrática, liberalismo, conservadorismo e outras correntes podem disputar legitimamente projetos políticos.
A questão essencial é preservar as condições que permitem essa disputa.
Eleições livres.
Direitos fundamentais.
Liberdade de expressão.
Pluralismo.
Responsabilidade institucional.
Fiscalização do poder.
Proteção contra a violência política.
Uma democracia não pode depender da existência de um único líder considerado indispensável.
Sua força está na capacidade das instituições e da sociedade de garantir direitos, inclusive aos cidadãos que discordam de quem governa.
A História está sendo escrita — e precisamos aprender a lê-la
Nasci durante a ditadura militar brasileira.
Cresci acompanhando a luta de minha mãe por direitos sociais, pela educação e pela participação democrática.
Desde muito jovem, compreendi que a História não acontece apenas nos palácios e nos gabinetes.
Ela também acontece nas ruas, nas escolas, nas comunidades e nas decisões de pessoas comuns.
Por isso, os acontecimentos de outubro e novembro de 2026 despertam em mim uma reflexão especial.
Não apenas porque uma eleição brasileira chamou a atenção internacional.
Mas porque podemos observar diferentes sociedades questionando seus caminhos, reorganizando forças políticas e procurando respostas para problemas que afetam suas vidas.
É importante reconhecer a capacidade de participação da população sem idealizar todos os movimentos.
É importante compreender a circulação internacional de símbolos sem atribuir a eles poderes que não possuem.
E é essencial preservar o rigor histórico mesmo quando um acontecimento desperta emoções profundas.
Como historiadora, acredito que nosso compromisso é registrar o que aconteceu, investigar por que aconteceu e distinguir nossas interpretações daquilo que os documentos efetivamente comprovam.
Como educadora, acredito que precisamos ensinar as novas gerações a compreender esses processos sem depender exclusivamente de discursos partidários ou de informações compartilhadas nas redes sociais.
E, como terapeuta, também observo a importância do pertencimento, da esperança, do medo e da identificação coletiva na maneira como as pessoas participam dos acontecimentos políticos.
A História é feita de instituições, economia, cultura, conflitos e relações de poder.
Mas também é feita de experiências humanas.
Considerações finais — Quando a participação de um povo inspira outras sociedades
A vitória brasileira de 25 de outubro de 2026 adquiriu repercussão internacional.
Sua mobilização popular foi estudada e comentada.
Seu símbolo eleitoral foi reproduzido por lideranças de outros países.
E suas estratégias de organização digital passaram a despertar interesse fora do Brasil.
Ao mesmo tempo, outros acontecimentos internacionais mostraram que diferentes sociedades também atravessam momentos de contestação e transformação política.
Não sabemos ainda quais serão as consequências duradouras desses processos.
Não podemos afirmar que todos caminham para uma mesma direção.
Mas podemos reconhecer que estamos diante de um período de intensa movimentação política.
A sociedade brasileira não deve ser apresentada como responsável por todas essas mudanças.
Também não deve ter sua participação minimizada.
É possível reconhecer a importância histórica do que aconteceu aqui e, simultaneamente, respeitar o protagonismo dos outros povos.
Um acontecimento pode inspirar sem ser a causa de tudo.
Um símbolo pode atravessar fronteiras sem representar uma ideologia universal.
Uma eleição pode modificar expectativas sem encerrar as disputas pelo poder.
E uma sociedade pode participar ativamente da História sem que isso signifique o desaparecimento de seus conflitos internos.
Talvez essa seja a reflexão mais importante deste momento:
A História não é uma estrada construída previamente para que os povos apenas a percorram.
Ela é resultado de escolhas, disputas, mobilizações, condições materiais, decisões institucionais e ações humanas.
O Brasil de outubro de 2026 tornou-se parte de uma narrativa internacional que ainda está sendo construída.
A Sérvia vive sua própria transformação.
Os Estados Unidos enfrentam uma nova composição de forças políticas.
A Europa presencia mobilizações sociais importantes.
E o Paraguai atravessa uma crise institucional de consequências ainda indefinidas.
Essas histórias se cruzam, mas não se confundem.
E cabe a nós estudá-las com a seriedade que merecem.
Porque registrar a História exige mais do que celebrar acontecimentos. Exige compreender suas origens, suas contradições e suas consequências para a vida das pessoas.
Andrea Dias
Historiadora | Educadora | Terapeuta
Professora de História — Especialista em Neurodivergência
6 de novembro de 2026
Texto histórico-reflexivo fundamentado em documentos eleitorais, reportagens internacionais e análise comparativa. Os acontecimentos descritos permanecem sujeitos a novos desdobramentos.
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