sexta-feira, 6 de novembro de 2026
OS “ISMOS” ESTÃO MUDANDO
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## Entre o capitalismo, o socialismo, a democracia e as novas disputas pelo poder: o que está acontecendo com os sistemas políticos e econômicos do mundo?
*Uma reflexão histórica, científica e social sobre as transformações do século XXI.*
**Por Andrea Dias — Professora de História e Educadora**
### Introdução — Os sistemas não são fotografias: são construções históricas
Durante muito tempo, aprendemos a classificar os países por meio de grandes definições: capitalistas, socialistas, comunistas, liberais ou conservadores.
Essas denominações foram importantes para explicar diferentes concepções de economia, propriedade, trabalho, sociedade e poder.
Entretanto, existe uma questão fundamental que precisamos compreender: os sistemas políticos e econômicos não permanecem imutáveis.
Eles se transformam.
Assim como a sociedade feudal europeia foi gradualmente substituída por novas relações econômicas, o capitalismo industrial do século XIX não é idêntico ao capitalismo financeiro e tecnológico do século XXI.
O socialismo concebido por pensadores do século XIX também não corresponde automaticamente às experiências políticas e econômicas que foram desenvolvidas por governos socialistas ao longo do século XX.
E aquilo que hoje observamos na China, no Vietnã, em Cuba, nos Estados Unidos, no Brasil ou nos países europeus demonstra que essas transformações continuam acontecendo.
Não estamos necessariamente diante do desaparecimento das ideologias.
Estamos diante de suas adaptações, contradições, disputas e reinterpretações.
**Para compreender o mundo atual, não basta perguntar qual sistema um país afirma possuir. Precisamos investigar como sua economia funciona, quem controla os recursos, como o poder é exercido e quais são os resultados para a população.**
### 1. O capitalismo está mudando: o retorno do Estado à economia
O capitalismo se desenvolveu historicamente apoiado na propriedade privada dos meios de produção, no trabalho assalariado, nos mercados e na acumulação de capital.
Mas nunca existiu uma única forma de capitalismo.
Ao longo da História, tivemos experiências de capitalismo comercial, industrial, financeiro, monopolista e diferentes modelos de economia mista.
A partir das décadas de 1970 e 1980, políticas associadas ao neoliberalismo ganharam força em vários países.
Privatizações, liberalização comercial, desregulamentação e redução de determinadas formas de intervenção estatal passaram a ocupar posição central em muitas reformas econômicas.
Entretanto, acontecimentos posteriores modificaram esse cenário.
A crise financeira internacional de 2008 demonstrou a importância da atuação dos governos e dos bancos centrais para impedir o colapso de instituições financeiras e reduzir os efeitos da crise.
A pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, evidenciou a dependência das sociedades em relação aos sistemas públicos de saúde, à pesquisa científica, à logística internacional e à capacidade dos Estados de responder a emergências.
As disputas comerciais, a crise climática e os conflitos internacionais também levaram diversos governos a reconsiderar sua dependência de fornecedores estrangeiros.
Em 2026, observamos uma retomada importante das políticas industriais.
A União Europeia, por exemplo, lançou em fevereiro de 2025 o *Clean Industrial Deal*, destinado a fortalecer a indústria europeia e combinar competitividade econômica, investimentos e descarbonização.
No Brasil, a política Nova Indústria Brasil procura estimular a modernização industrial, a inovação tecnológica, a produtividade e a sustentabilidade.
Nos Estados Unidos, políticas tarifárias e de proteção de setores estratégicos mostram que medidas protecionistas podem ser defendidas inclusive por governos associados a correntes favoráveis ao mercado.
Isso revela uma contradição apenas aparente.
**O capitalismo não exige ausência de Estado. A questão histórica é como o Estado atua, quais interesses suas políticas atendem e como seus custos e benefícios são distribuídos.**
A tendência contemporânea não é simplesmente substituir o capitalismo por outro sistema.
Em muitos países, trata-se de reorganizá-lo diante de novas necessidades econômicas, tecnológicas, ambientais e geopolíticas.
### 2. A China e o Vietnã: governos comunistas com economias orientadas pelo mercado
Uma das transformações mais importantes da história econômica contemporânea ocorreu na China.
Desde as reformas iniciadas por Deng Xiaoping, em 1978, o país ampliou progressivamente a utilização dos mercados, a atividade empresarial privada e o investimento estrangeiro.
Entretanto, preservou a direção política do Partido Comunista Chinês.
A Constituição e as políticas oficiais continuam definindo o país como socialista.
Mas sua economia incorpora empresas privadas, concorrência, comércio internacional, propriedade estatal e forte planejamento estratégico.
Em abril de 2025, a China aprovou sua primeira lei nacional voltada especificamente à promoção do setor privado.
A legislação entrou em vigor em maio daquele ano.
Segundo informações oficiais, as empresas privadas respondem por mais de 60% do PIB e aproximadamente 80% dos empregos urbanos chineses.
O objetivo declarado é ampliar a segurança jurídica, o financiamento, a inovação e as condições de concorrência.
O Vietnã apresenta outra experiência significativa.
Desde o programa de reformas econômicas conhecido como *Đổi Mới*, iniciado em 1986, o país adotou mecanismos de mercado e ampliou investimentos privados.
Em maio de 2025, o governo vietnamita publicou a Resolução 68, atribuindo ao setor privado uma posição central no desenvolvimento nacional.
Segundo dados apresentados pelo próprio governo, esse setor já respondia por aproximadamente metade do PIB.
Essas experiências demonstram que países governados por partidos comunistas podem incorporar mercados e empresas privadas sem abandonar formalmente seus projetos socialistas.
Isso, porém, não significa que tenham realizado o comunismo teórico descrito na tradição marxista.
Também não permite concluir que a liberalização econômica tenha sido acompanhada por liberalização política equivalente.
É necessário distinguir as duas dimensões.
**Uma economia pode ampliar mercados e empresas privadas enquanto mantém uma estrutura política de partido único.**
A China e o Vietnã são exemplos fundamentais para compreender essa combinação.
### 3. Cuba: uma das maiores readequações econômicas desde 1959
Cuba oferece um exemplo ainda mais recente.
A Revolução Cubana de 1959 iniciou um processo que posteriormente levou à organização de uma economia socialista caracterizada por forte centralização estatal.
Durante décadas, a economia cubana manteve amplas restrições às atividades privadas.
Entretanto, o país passou a enfrentar dificuldades econômicas persistentes, agravadas por sanções externas, problemas estruturais de produtividade, escassez de combustíveis, limitações de investimento e crise de abastecimento.
Em junho de 2026, o governo cubano aprovou um pacote de 176 medidas de reforma econômica.
Entre as propostas estavam a ampliação da atividade empresarial privada, novas formas de investimento, maior autonomia comercial e abertura de setores anteriormente dominados pelo Estado.
Nos meses seguintes, foram anunciadas regulamentações para facilitar investimentos estrangeiros, contratações privadas e atividades ligadas ao turismo.
As mudanças estão entre as mais significativas desde a revolução.
Ao mesmo tempo, o governo afirmou que pretende preservar o controle público de setores considerados estratégicos, como saúde, ciência e serviços essenciais.
O caso cubano revela uma distinção importante entre necessidade de reforma econômica e mudança integral de regime político.
A abertura de mercados não significa, por si só, a implantação de uma democracia multipartidária.
Da mesma maneira, a preservação de serviços estatais não significa que todos os demais setores permaneçam sob planejamento central.
Ainda é necessário acompanhar a implementação concreta dessas medidas.
As condições econômicas de Cuba também não podem ser explicadas por uma causa isolada.
Sanções internacionais, decisões de política econômica, produtividade, infraestrutura e capacidade administrativa precisam ser examinadas conjuntamente.
A mudança de Cuba demonstra que até sistemas historicamente resistentes à abertura econômica podem passar por transformações profundas.
### 4. A social-democracia está sendo readequada: proteger direitos e financiar o Estado de bem-estar
Os países nórdicos são frequentemente apresentados como exemplos de socialismo.
Essa classificação é imprecisa.
Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia possuem economias predominantemente capitalistas, combinadas com ampla proteção social, serviços públicos e diferentes mecanismos redistributivos.
Essa organização é frequentemente associada à tradição social-democrata.
Mas também está passando por mudanças.
O envelhecimento populacional, os custos previdenciários, as transformações do trabalho, a imigração, a produtividade e as necessidades de financiamento dos serviços públicos têm produzido novas reformas.
Na Dinamarca, por exemplo, o governo e o Parlamento promoveram mudanças nas regras previdenciárias e na assistência social.
A idade legal de aposentadoria foi programada para alcançar 70 anos em 2040.
Também foram adotadas medidas para incentivar a permanência de pessoas mais velhas no mercado de trabalho.
Essas decisões demonstram que um Estado de bem-estar social não permanece inalterado.
Seus mecanismos são permanentemente discutidos, negociados e modificados.
As reformas podem buscar sustentabilidade financeira, maior inserção no trabalho e reorganização de benefícios, mas também suscitam debates sobre desigualdade, proteção dos mais vulneráveis e condições efetivas de envelhecimento.
A questão central é encontrar formas de conciliar proteção social, financiamento público, atividade econômica e direitos.
**A social-democracia contemporânea não enfrenta apenas o desafio de ampliar direitos, mas também o de preservar e adaptar conquistas sociais diante das mudanças demográficas e econômicas.**
### 5. O liberalismo econômico e o neoliberalismo também estão sendo testados
A Argentina representa um exemplo contemporâneo de reformas orientadas para maior liberalização econômica.
Desde o início do governo Javier Milei, em dezembro de 2023, foram implementadas políticas de ajuste fiscal, redução de subsídios, desregulamentação e ampliação de mecanismos de mercado.
Em 2026, o Fundo Monetário Internacional registrou avanços na redução da inflação e no equilíbrio fiscal, mas também apontou vulnerabilidades nas reservas internacionais, no emprego e na estabilidade econômica.
Esse caso demonstra por que não devemos avaliar uma política apenas por suas intenções declaradas.
A redução da inflação é um resultado econômico importante.
Mas a análise histórica também precisa observar os efeitos sobre salários, emprego, pobreza, investimento, serviços públicos e desigualdade.
Reformas de mercado podem produzir benefícios em determinadas dimensões e custos em outras.
Seus resultados também podem variar conforme o período analisado.
A avaliação científica exige comparar indicadores, examinar dados anteriores e posteriores às mudanças e considerar fatores externos.
Não basta afirmar que o Estado foi reduzido para concluir que a economia melhorou.
Também não basta identificar dificuldades sociais para afirmar que todas as reformas fracassaram.
É necessário investigar o conjunto das consequências.
### 6. Anarquismo, autogestão e novas formas de organização coletiva
O anarquismo também passou por diferentes transformações desde o século XIX.
Suas correntes compartilham críticas a formas coercitivas de autoridade e valorizam, de maneiras distintas, a autonomia, a associação voluntária e a autogestão.
Historicamente, essas ideias influenciaram sindicatos, cooperativas, movimentos comunitários e experiências revolucionárias.
Na Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939, organizações anarquistas e anarcossindicalistas desenvolveram experiências de coletivização agrícola, industrial e de gestão por trabalhadores.
No século XXI, princípios de horizontalidade, descentralização e autogestão aparecem em diferentes movimentos sociais.
Cooperativas de trabalhadores, redes de apoio mútuo e organizações comunitárias podem incorporar alguns desses princípios sem necessariamente se declararem anarquistas.
Uma experiência contemporânea importante foi a administração autônoma do nordeste da Síria, frequentemente associada ao confederalismo democrático e a formas descentralizadas de organização.
Entretanto, em 2026, acordos de integração com o Estado sírio e mudanças territoriais reduziram significativamente a autonomia anteriormente exercida por essa administração.
Esse exemplo revela uma dificuldade fundamental das experiências autônomas: sua continuidade depende também de condições militares, institucionais, econômicas e geopolíticas.
É importante não confundir todas as experiências descentralizadas com anarquismo em sentido estrito.
Mas também não devemos reduzir o anarquismo à ideia equivocada de desordem.
O debate sobre autogestão permanece presente nas discussões contemporâneas sobre democracia econômica e participação coletiva.
### 7. O trabalho está mudando mais rapidamente do que as leis
Talvez uma das transformações mais profundas do século XXI esteja acontecendo nas relações de trabalho.
O capitalismo industrial foi construído em torno de fábricas, empresas, contratos de trabalho e estruturas produtivas relativamente identificáveis.
Hoje, parte crescente da atividade econômica ocorre por meio de plataformas digitais.
Motoristas, entregadores, prestadores de serviços, produtores de conteúdo e outros trabalhadores podem depender de sistemas controlados por algoritmos.
Esses sistemas interferem na distribuição de tarefas, nos pagamentos, nas avaliações e, em determinadas circunstâncias, na permanência do trabalhador na plataforma.
Isso cria novas questões sobre subordinação, autonomia, remuneração e proteção social.
Quem determina as condições de trabalho quando a organização das atividades depende de decisões automatizadas?
Quem responde por uma decisão algorítmica que prejudica um trabalhador?
Como garantir direitos quando o vínculo empregatício tradicional não corresponde exatamente às novas formas de prestação de serviços?
Em junho de 2026, a Organização Internacional do Trabalho adotou a Convenção 193, voltada ao trabalho decente na economia de plataformas.
O documento estabelece parâmetros internacionais sobre direitos fundamentais, segurança, remuneração, proteção de dados, transparência dos algoritmos e mecanismos de contestação de decisões automatizadas.
Sua aplicação nacional depende dos procedimentos jurídicos pertinentes, incluindo ratificação e implementação.
Essa mudança demonstra que os direitos trabalhistas também precisam ser reinterpretados diante da tecnologia.
A inteligência artificial acrescenta novos desafios.
A Organização Internacional do Trabalho identificou riscos associados ao monitoramento excessivo, à intensificação das atividades, à perda de autonomia e às condições psicossociais dos trabalhadores.
Portanto, a discussão não é apenas sobre máquinas substituírem pessoas.
É também sobre **quem controla a tecnologia, quem se beneficia de sua produtividade e quais mecanismos protegem a dignidade de quem trabalha.**
### 8. O capitalismo digital: quando dados e algoritmos se tornam instrumentos de poder
No capitalismo contemporâneo, os meios de produção não são apenas terras, fábricas, máquinas e instalações industriais.
Dados, plataformas digitais, infraestrutura de computação, modelos de inteligência artificial, patentes e redes de comunicação passaram a ocupar posição econômica estratégica.
Empresas de tecnologia podem exercer enorme influência sobre o comércio, a publicidade, os serviços e a circulação de informações.
Isso modifica a competição econômica e cria novos desafios regulatórios.
O controle de dados e de infraestrutura digital pode favorecer a concentração de mercado.
Ao mesmo tempo, novas tecnologias oferecem oportunidades de inovação, produtividade, acessibilidade e ampliação de serviços.
O desafio está em estabelecer regras que permitam inovação sem comprometer direitos, privacidade, concorrência e segurança.
Esse debate atravessa sistemas econômicos diferentes.
Países capitalistas procuram regular empresas de tecnologia.
Governos oficialmente socialistas também investem intensamente em inteligência artificial, plataformas e infraestrutura digital.
Portanto, a tecnologia não pertence exclusivamente a uma ideologia.
Seu impacto depende das instituições, das regras e das relações de poder presentes em cada sociedade.
### 9. A questão ambiental está obrigando os sistemas econômicos a reconsiderarem seus modelos de crescimento
Durante grande parte da industrialização mundial, o crescimento econômico esteve associado ao aumento da produção, do consumo de energia e da exploração de recursos naturais.
Atualmente, as consequências ambientais desse modelo impõem novos desafios.
Mudanças climáticas, degradação ambiental, perda de biodiversidade e riscos relacionados ao abastecimento de água e alimentos exigem adaptações.
Governos capitalistas vêm adotando políticas industriais voltadas à transição energética.
Organizações socialistas e movimentos ecossocialistas discutem formas de reorganizar a produção e o consumo a partir de critérios de sustentabilidade.
Cooperativas e iniciativas comunitárias desenvolvem experiências de economia solidária e circular.
No Brasil, o Plano Nacional de Economia Circular, aprovado em 2025, estabelece objetivos e ações para os próximos dez anos.
Na União Europeia, o *Clean Industrial Deal* busca conciliar produção industrial, competitividade e redução de emissões.
Não se trata de afirmar que todos esses projetos sejam equivalentes.
Existem divergências relevantes sobre financiamento, ritmo de transformação, propriedade dos recursos e distribuição dos custos.
Mas todos precisam enfrentar uma realidade material: o planeta possui limites ambientais.
A economia contemporânea não pode ser estudada ignorando a relação entre produção, natureza e condições de vida.
### 10. A democracia também está passando por transformações preocupantes
A análise dos sistemas econômicos não pode ser confundida com a análise dos regimes políticos.
Um país pode possuir uma economia capitalista e instituições democráticas.
Outro pode apresentar uma economia capitalista com restrições severas aos direitos políticos.
Da mesma forma, um Estado que se declara socialista pode manter um sistema de partido único ou adotar diferentes formas de representação.
Por isso, precisamos investigar as instituições efetivamente existentes.
A democracia depende de elementos como eleições competitivas, pluralismo, liberdade de expressão, proteção de direitos, independência judicial e limites ao exercício do poder.
Nos últimos anos, diferentes pesquisas identificaram sinais de deterioração democrática em várias regiões.
O relatório *Freedom in the World 2026*, da organização Freedom House, registrou que a liberdade global recuou pelo vigésimo ano consecutivo em 2025.
Segundo sua metodologia, 54 países apresentaram deterioração em direitos políticos ou liberdades civis naquele ano, enquanto 35 registraram melhorias.
Esses resultados são indicadores produzidos por uma instituição específica e devem ser interpretados segundo seus critérios.
Mas apontam para uma discussão internacional importante.
Movimentos políticos podem chegar ao governo por eleições e posteriormente promover mudanças que enfraqueçam o pluralismo ou a capacidade de fiscalização das instituições.
A ciência política costuma analisar esses processos por conceitos como erosão democrática, autocratização e concentração de poder.
Isso não significa que toda vitória eleitoral de um candidato conservador, socialista, liberal ou nacionalista represente autoritarismo.
A avaliação deve considerar atos concretos, alterações institucionais e impactos sobre direitos.
**A legitimidade de uma eleição e a qualidade democrática do exercício do poder são dimensões relacionadas, mas não idênticas.**
### 11. A geopolítica está reorganizando o capitalismo e as relações internacionais
Durante as últimas décadas do século XX, a globalização econômica estimulou a ampliação de cadeias produtivas internacionais.
Empresas distribuíram fábricas e fornecedores por diferentes países, buscando custos, mercados e oportunidades.
Esse processo gerou crescimento e integração econômica, mas também criou dependências estratégicas.
Conflitos internacionais, disputas comerciais e crises de abastecimento modificaram a maneira como muitos governos avaliam essas relações.
Em 2026, a Organização Mundial do Comércio identificou o crescimento de intervenções estatais, políticas industriais, restrições comerciais e disputas geopolíticas.
A preocupação com semicondutores, energia, minerais estratégicos, alimentos e tecnologias avançadas passou a influenciar decisões econômicas de governos com orientações políticas bastante diferentes.
Esse é um dos sinais mais importantes das readequações contemporâneas.
O Estado voltou a assumir papel estratégico em setores considerados essenciais para a segurança econômica.
Mas essa atuação não significa necessariamente socialismo.
Pode ser uma política de desenvolvimento capitalista, de segurança nacional ou de proteção industrial.
A História demonstra que governos frequentemente adaptam seus instrumentos econômicos quando percebem ameaças aos seus interesses estratégicos.
Isso está acontecendo novamente.
### 12. A proteção social está sendo rediscutida em todo o mundo
Outro aspecto fundamental das transformações atuais é a discussão sobre direitos sociais.
O Relatório sobre o Estado da Proteção Social de 2025, do Banco Mundial, estima que aproximadamente 2 bilhões de pessoas em países de renda baixa e média não possuem cobertura social adequada.
Isso demonstra que o desenvolvimento econômico, sozinho, não garante proteção universal.
Sistemas econômicos diferentes enfrentam desafios semelhantes: envelhecimento populacional, pobreza, desemprego, informalidade e mudanças nas relações de trabalho.
As respostas, entretanto, variam.
Alguns países ampliam transferências sociais.
Outros reformulam critérios de acesso a benefícios.
Alguns incentivam previdência complementar ou prolongamento da vida profissional.
Outros fortalecem serviços públicos e políticas de inclusão produtiva.
Essas escolhas produzem consequências distintas.
É necessário avaliar não apenas o equilíbrio das contas públicas, mas também a capacidade das políticas de garantir condições dignas de vida.
A proteção social não é monopólio de uma ideologia.
Sua existência e seu alcance resultam de processos históricos, decisões institucionais, condições econômicas e disputas sociais.
E aqui encontramos uma relação direta com a História brasileira.
Direitos trabalhistas, previdenciários e sociais foram construídos e modificados ao longo de gerações.
Muitos surgiram de mobilizações populares, negociações e conflitos políticos.
Nenhum deles deve ser tratado como se tivesse surgido espontaneamente.
### 13. O que essas mudanças realmente significam?
Ao observarmos o cenário mundial, percebemos que os sistemas econômicos estão se tornando mais complexos.
Países oficialmente socialistas utilizam mecanismos de mercado.
Países capitalistas ampliam políticas industriais e estratégicas.
Estados de bem-estar social reformulam benefícios e regras previdenciárias.
Governos favoráveis à liberalização econômica também precisam administrar custos sociais e estabelecer mecanismos de proteção.
Movimentos comunitários discutem alternativas de autogestão.
A inteligência artificial altera as relações entre trabalhadores, empresas e governos.
A crise ambiental impõe novos limites ao crescimento.
E as disputas geopolíticas modificam a organização da produção e do comércio internacional.
Não é correto afirmar que todas essas mudanças caminham para um único sistema universal.
Também não podemos concluir que as diferenças entre capitalismo e socialismo tenham desaparecido.
As questões relacionadas à propriedade, à distribuição da riqueza, ao controle dos meios de produção e ao poder político permanecem fundamentais.
O que está mudando são os instrumentos, as instituições, as estratégias e as combinações utilizadas para organizar as sociedades.
**As ideologias continuam existindo, mas a realidade histórica é mais complexa do que seus rótulos.**
### Considerações finais — A História não terminou, e os sistemas continuarão mudando
Como professora de História, considero especialmente importante compreender essas transformações sem reproduzir explicações simplificadas.
O mundo não está dividido em dois blocos perfeitamente opostos.
Não existe uma relação automática entre capitalismo e liberdade política.
Também não existe equivalência necessária entre socialismo e justiça social, nem entre intervenção estatal e autoritarismo.
Essas relações precisam ser demonstradas, não presumidas.
Para avaliar uma experiência política ou econômica, devemos perguntar:
Quem controla os recursos?
Quem participa das decisões?
Quais direitos são garantidos?
Quais liberdades são respeitadas?
Como a riqueza produzida é distribuída?
Quais são as condições concretas de trabalho, educação, saúde e envelhecimento?
Como o país trata suas populações historicamente marginalizadas?
E quais resultados suas instituições realmente produzem?
Essas perguntas são mais importantes do que simplesmente atribuir um nome ideológico a determinado governo.
A História mostra que nenhum sistema permaneceu exatamente igual à sua formulação inicial.
As sociedades mudam porque suas necessidades, seus conflitos, suas tecnologias e suas relações de poder também mudam.
O grande desafio contemporâneo é compreender quais transformações ampliam oportunidades, direitos, participação e bem-estar, e quais aprofundam desigualdades, concentração de poder ou restrições à liberdade.
Esses resultados precisam ser examinados com dados, documentos, conhecimento histórico e responsabilidade científica.
Não com slogans.
Não com medo de palavras.
Não com imagens idealizadas de governantes.
E muito menos com a repetição de conceitos que não foram devidamente compreendidos.
**Conhecer a História não significa decorar aquilo que aconteceu. Significa compreender os processos que produziram o presente e desenvolver instrumentos para analisar os caminhos possíveis do futuro.**
O capitalismo está mudando.
As experiências socialistas estão se readequando.
A proteção social está sendo reformulada.
As relações de trabalho estão sendo transformadas.
A democracia enfrenta novos desafios.
E a tecnologia está modificando profundamente as estruturas de poder.
Mas a pergunta histórica que permanece é:
**A serviço de quem essas transformações estão acontecendo — e quais serão suas consequências para a vida humana?**
Essa é a reflexão que precisamos continuar fazendo.
*Andrea Dias*
*Professora de História | Educadora | Psicanalista | Especialista em Neurodivergência*
**28 de outubro de 2026**
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### Referências documentais e bibliográficas
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**FREIRE, Paulo.** *Pedagogia do Oprimido*. Paz e Terra, 1970.
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