sexta-feira, 6 de novembro de 2026
QUANDO A CONVICÇÃO CEGA, A HUMANIDADE SANGRA
Do pensamento inflexível à perseguição: a história dos extremismos que transformaram diferenças em violência
Uma reflexão histórica, filosófica, psicológica e social sobre intolerância, poder, ignorância, fanatismo e os limites da liberdade humana.
Por Andrea Dias — Professora de História, Educadora e Psicanalista
Quando acreditar deixa de ser suficiente e surge a necessidade de destruir quem pensa diferente
Existe uma diferença imensa entre acreditar em alguma coisa e acreditar que todas as outras pessoas são obrigadas a pensar da mesma maneira.
Podemos ter convicções religiosas, políticas, filosóficas e culturais profundas. Podemos defender nossas ideias, questionar valores, discordar de governos, criticar comportamentos e até considerar determinadas concepções profundamente equivocadas.
Tudo isso faz parte da liberdade humana.
Entretanto, existe um momento em que a convicção pode deixar de ser uma referência pessoal e se transformar em instrumento de intolerância.
É quando a pessoa já não deseja compreender, argumentar ou conviver.
Deseja impor.
Já não procura conhecer o outro.
Procura desqualificá-lo.
Já não admite a possibilidade de estar equivocada.
Passa a considerar sua própria interpretação como a única verdade legítima.
E, quando essa postura se associa ao poder, ao medo, à propaganda e à desumanização, as consequências podem ultrapassar o campo das ideias e atingir a liberdade, a integridade e a própria existência de outras pessoas.
A História está repleta desses acontecimentos.
Civilizações foram conquistadas, tradições foram reprimidas, mulheres foram condenadas, comunidades religiosas foram perseguidas e povos inteiros foram submetidos à violência porque suas diferenças passaram a ser apresentadas como perigosas.
Mas precisamos compreender um aspecto fundamental: o extremismo não deve ser confundido simplesmente com ignorância ou falta de inteligência.
Pessoas com elevada escolaridade também participaram de perseguições históricas. Intelectuais, médicos, juristas, religiosos, administradores e governantes contribuíram para construir e legitimar sistemas violentos.
O problema é mais profundo.
Envolve relações de poder, interesses políticos, preconceitos aprendidos, processos de identificação coletiva, rigidez ideológica e a disposição de justificar o sofrimento alheio em nome de uma causa considerada superior.
Talvez uma das perguntas mais perturbadoras da História seja esta: como seres humanos conseguem acreditar que estão fazendo o bem enquanto participam da destruição da vida de outras pessoas?
1. Antes do cristianismo: os povos celtas e a repressão às tradições religiosas
Muito antes da expansão do cristianismo pela Europa, diferentes povos celtas ocupavam regiões que hoje correspondem, entre outras, a partes da França, das Ilhas Britânicas e da Europa Central.
É importante reconhecer que os celtas não constituíam um único Estado ou uma civilização politicamente uniforme. Eram diferentes comunidades, com línguas, tradições e organizações próprias.
Entre algumas dessas sociedades, os druidas exerciam funções religiosas, culturais e educativas.
Fontes greco-romanas, incluindo Júlio César e Tácito, registraram aspectos dessas tradições.
Mas precisamos considerar que grande parte dos relatos escritos preservados foi produzida por observadores externos, frequentemente pertencentes às próprias sociedades que conquistaram territórios celtas.
Isso exige cuidado histórico.
Durante a expansão romana, comunidades celtas enfrentaram guerras, subordinação política, destruição de estruturas locais e repressão a determinadas práticas religiosas.
Um episódio conhecido ocorreu na ilha de Mona, atual Anglesey, no País de Gales, por volta de 60 ou 61 d.C.
O governador romano Suetônio Paulino conduziu uma campanha militar contra grupos que incluíam druidas, considerados adversários importantes do domínio romano.
Segundo Tácito, houve destruição de locais sagrados e repressão violenta.
Não seria historicamente correto afirmar que todas as tradições celtas desapareceram naquele momento. Muitas práticas sobreviveram, foram transformadas ou se combinaram com outras influências culturais.
Também não devemos idealizar as sociedades celtas como inteiramente pacíficas ou livres de conflitos.
O que esse episódio demonstra é como a expansão territorial e a consolidação do poder podem atingir profundamente a liberdade cultural e religiosa de populações dominadas.
A repressão não aconteceu porque os romanos simplesmente desconheciam outras religiões. O Império Romano frequentemente incorporava divindades e práticas de diferentes povos.
A violência contra os druidas esteve relacionada também à resistência política e ao controle imperial.
Essa distinção é fundamental.
Nem toda perseguição religiosa nasce exclusivamente de divergências teológicas. Muitas vezes, a religião também se torna parte de disputas por território, autoridade e poder.
2. Jesus de Nazaré: a perseguição e as contradições da intolerância religiosa
Séculos depois, em uma região submetida ao domínio romano, viveu Jesus de Nazaré.
Historicamente, Jesus era judeu e desenvolveu sua atuação no contexto religioso e político da Judeia e da Galileia do século I.
Seus ensinamentos, preservados principalmente nos Evangelhos, enfatizavam a misericórdia, o cuidado com pessoas vulneráveis, o amor ao próximo e a importância da transformação interior.
Segundo as narrativas cristãs, suas atitudes provocaram tensões com determinadas autoridades religiosas e políticas.
Jesus foi crucificado sob o governo romano de Pôncio Pilatos.
A crucificação era uma pena utilizada pelo poder romano, inclusive contra pessoas consideradas ameaças à ordem estabelecida.
É indispensável esclarecer que sua morte não pode ser atribuída coletivamente ao povo judeu.
Essa interpretação, utilizada durante séculos para alimentar o antissemitismo, constitui uma generalização histórica e moralmente injustificável.
O próprio Jesus era judeu.
Seus primeiros seguidores também eram judeus.
E aqui encontramos uma contradição que merece reflexão.
Como uma mensagem religiosa centrada no amor ao próximo pôde, em determinados contextos posteriores, ser invocada para justificar violência contra pessoas de outras crenças?
A resposta não está em reduzir toda uma religião às práticas de determinados grupos.
Está em compreender como ensinamentos religiosos podem ser reinterpretados, apropriados e utilizados por instituições e lideranças em diferentes circunstâncias históricas.
Uma crença que ensina a amar o próximo perde sua coerência ética quando passa a ser utilizada para justificar a desumanização desse mesmo próximo.
3. Os primeiros cristãos: quando a fé se torna motivo de perseguição
Nos primeiros séculos da era cristã, diferentes comunidades de seguidores de Jesus enfrentaram perseguições no Império Romano.
Durante o governo de Nero, após o incêndio de Roma, em 64 d.C., cristãos foram responsabilizados e submetidos a punições violentas.
Em períodos posteriores, especialmente sob os imperadores Décio e Diocleciano, ocorreram campanhas de repressão religiosa.
A recusa de alguns cristãos em participar dos cultos oficiais romanos poderia ser interpretada como desobediência à autoridade imperial.
É importante lembrar que as perseguições não foram contínuas nem uniformes em todo o Império.
Em 313, o acordo conhecido como Édito de Milão representou uma mudança importante na política de tolerância religiosa.
No final do século IV, o cristianismo niceno adquiriu posição privilegiada e oficial no Império.
Com o passar dos séculos, instituições cristãs passaram a exercer também significativo poder político.
E determinados grupos que antes pertenciam a uma tradição perseguida passaram, em alguns contextos, a participar da perseguição de outras pessoas.
Isso nos ensina uma lição histórica difícil, mas indispensável:
Ter sofrido perseguição não impede automaticamente que uma comunidade, quando conquista poder, reproduza práticas persecutórias contra outros grupos.
A memória do sofrimento precisa ser acompanhada pela responsabilidade de não repetir a violência.
4. As Cruzadas e a instrumentalização da fé
Entre os séculos XI e XIII, diferentes campanhas militares conhecidas como Cruzadas mobilizaram interesses religiosos, políticos, territoriais e econômicos.
A Primeira Cruzada foi convocada em 1095 pelo papa Urbano II e resultou, em 1099, na conquista de Jerusalém.
A tomada da cidade foi acompanhada por massacres.
Durante outras campanhas, comunidades cristãs orientais, judaicas e muçulmanas também sofreram violência.
A Quarta Cruzada, em 1204, culminou no saque de Constantinopla, uma cidade cristã, demonstrando como interesses políticos e econômicos podiam se sobrepor às justificativas religiosas originais.
Entretanto, as relações entre sociedades cristãs, judaicas e muçulmanas na Idade Média não foram constituídas apenas por guerras.
Também existiram comércio, produção intelectual, tradução de obras, intercâmbios científicos e períodos de convivência.
É justamente essa complexidade que precisamos preservar.
Não existiu uma única postura de todos os cristãos, de todos os muçulmanos ou de todos os judeus.
Existiram diferentes sociedades, governos, lideranças e experiências.
O problema aparece quando a identidade religiosa é transformada em instrumento de mobilização para justificar violência coletiva.
Quando isso acontece, a fé deixa de funcionar apenas como experiência espiritual e passa a ser utilizada como linguagem de legitimação do poder.
5. A caça às bruxas: quando a suspeita se transforma em sentença
Entre os séculos XV e XVIII, diferentes regiões europeias foram marcadas por perseguições a pessoas acusadas de bruxaria.
As estimativas historiográficas mais aceitas apontam aproximadamente 40 mil a 60 mil execuções ao longo do principal período dessas perseguições, embora os números permaneçam sujeitos a debates e diferenças documentais.
A maioria das pessoas executadas era formada por mulheres, mas também houve homens acusados e condenados.
Não podemos explicar esses acontecimentos por uma única causa.
Crenças religiosas, conflitos comunitários, disputas familiares, crises econômicas, problemas agrícolas, epidemias e relações de poder contribuíram para a formação das acusações.
Em determinadas regiões, pessoas idosas, pobres ou socialmente isoladas ficavam particularmente vulneráveis.
Uma morte inesperada poderia ser atribuída à ação de uma suposta bruxa.
A perda de uma colheita poderia transformar uma vizinha em suspeita.
Um conflito entre famílias poderia alimentar uma acusação.
E a acusação, uma vez aceita, poderia desencadear interrogatórios, torturas e condenações.
Essas perseguições aconteceram em diferentes sociedades católicas e protestantes, por meio de tribunais religiosos e civis.
É incorreto atribuir todas as execuções exclusivamente à Inquisição.
O que considero particularmente perturbador é a maneira como a suspeita adquiria aparência de certeza.
Não era necessário demonstrar que alguém havia causado determinado sofrimento.
Bastava construir uma narrativa suficientemente convincente para a comunidade ou para as autoridades.
E, quando a população começava a acreditar que determinadas pessoas representavam um perigo, a violência podia ser apresentada como uma forma de proteção coletiva.
A História da caça às bruxas revela como o medo, quando associado à autoridade e à ausência de garantias jurídicas, pode destruir vidas.
Uma sociedade que substitui provas por suspeitas e justiça por medo abre espaço para que qualquer pessoa seja transformada em inimiga.
6. Judeus, perseguições seculares e o Holocausto
A perseguição às comunidades judaicas atravessou diferentes períodos da História.
Na Europa medieval, judeus foram submetidos a expulsões, restrições profissionais, confinamento em determinados espaços e episódios de violência coletiva.
Durante epidemias, como a Peste Negra, foram falsamente responsabilizados pela propagação de doenças.
Acusações religiosas e econômicas contribuíram para alimentar o antissemitismo.
No século XX, o regime nazista transformou esse preconceito em política estatal sistemática.
Em 1º de abril de 1933, o governo nazista organizou um boicote contra estabelecimentos comerciais e profissionais judeus.
Vitrines foram marcadas com inscrições discriminatórias e símbolos religiosos utilizados como instrumentos de identificação e intimidação.
As Leis de Nuremberg, de 1935, retiraram direitos de cidadania e institucionalizaram a discriminação racial.
A perseguição se intensificou.
Em 1941, o regime tornou obrigatória, para grande parte da população judaica submetida às normas alemãs, a utilização da estrela amarela de identificação.
Houve deportações, confinamento em guetos, trabalho forçado e assassinatos sistemáticos.
Durante o Holocausto, aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista e seus colaboradores.
O nazismo também perseguiu pessoas roma e sinti, pessoas com deficiência, opositores políticos, testemunhas de Jeová e outros grupos.
A história do Holocausto demonstra como a desumanização pode ser construída gradualmente.
Primeiro, disseminam-se estereótipos.
Depois, diferenças são transformadas em ameaças.
Direitos são restringidos.
A discriminação torna-se institucional.
A violência é normalizada.
E, em condições históricas específicas, a perseguição pode alcançar dimensões genocidas.
Não devemos transformar essa sequência em uma fórmula que explique automaticamente qualquer conflito atual.
Mas precisamos conhecer seus mecanismos para identificar riscos reais e defender os direitos humanos.
7. A colonização e a violência contra povos originários
A expansão colonial europeia provocou profundas transformações nas Américas, na África, na Ásia e em outras regiões.
Diferentes povos originários foram submetidos a conquistas militares, deslocamentos forçados, destruição de territórios, imposição de práticas culturais e exploração econômica.
Em muitos casos, autoridades coloniais procuraram substituir sistemas tradicionais de organização social e religiosa.
No Brasil, a colonização portuguesa esteve acompanhada de violência contra povos originários e da escravização de africanos e seus descendentes.
Durante séculos, discursos políticos, econômicos e até religiosos foram utilizados para justificar a exploração.
A ideia de que determinados povos seriam inferiores ou necessitariam ser civilizados funcionou como instrumento de legitimação da dominação.
Entretanto, os povos originários e as populações africanas escravizadas não foram apenas vítimas passivas.
Houve resistência, preservação cultural, revoltas, quilombos, organizações coletivas e múltiplas estratégias de sobrevivência.
Essa História precisa ser contada sem apagar a agência e o protagonismo das populações perseguidas.
Também precisamos reconhecer que a violência colonial não se limitou ao passado distante.
Seus efeitos permanecem perceptíveis em desigualdades territoriais, conflitos fundiários, discriminação e disputas por reconhecimento cultural.
Quando um grupo humano passa a considerar sua própria cultura superior a todas as demais, pode encontrar justificativas para transformar a diferença em dominação.
8. As religiões de matriz africana e a intolerância brasileira
No Brasil, a perseguição religiosa também atingiu profundamente tradições de matriz africana.
Durante a escravização e posteriormente, diferentes práticas culturais e religiosas africanas foram reprimidas, criminalizadas ou desvalorizadas.
O Candomblé, a Umbanda e outras tradições enfrentaram estigmatização e, em diferentes períodos, intervenções policiais e restrições à liberdade de culto.
Até hoje, episódios de violência contra terreiros e praticantes dessas religiões são registrados.
A intolerância pode aparecer na destruição de objetos sagrados, em ameaças, ataques a espaços religiosos ou humilhações dirigidas a seus integrantes.
Precisamos distinguir o direito de discordar de uma crença do ato de agredir alguém por praticá-la.
Uma pessoa pode seguir sua religião e não compartilhar os ensinamentos de outra.
Isso faz parte da liberdade de consciência.
Mas essa liberdade não autoriza impedir o culto alheio, ameaçar praticantes ou destruir espaços religiosos.
No Brasil, a legislação reconhece e protege a liberdade religiosa e estabelece sanções para diferentes condutas discriminatórias.
O respeito à diversidade religiosa não exige que todos professem as mesmas crenças.
Exige que todos tenham seus direitos preservados.
9. O extremismo religioso não pertence a uma única tradição
Uma abordagem histórica responsável não pode apresentar a intolerância como característica exclusiva de determinada religião.
Ao longo dos séculos, diferentes sociedades viveram perseguições promovidas por grupos que utilizavam justificativas religiosas.
No Irã contemporâneo, integrantes da comunidade bahá'í enfrentam perseguições documentadas por organizações de direitos humanos, incluindo restrições educacionais, econômicas e religiosas.
Em 2014, integrantes do autodenominado Estado Islâmico iniciaram uma campanha de violência contra a comunidade yazidi, especialmente na região de Sinjar, no Iraque.
Investigações das Nações Unidas identificaram evidências de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
Milhares de pessoas foram assassinadas, deslocadas ou submetidas a diferentes formas de violência, incluindo escravização sexual.
A organização extremista também perseguiu cristãos, muçulmanos de diferentes tradições e outros grupos.
Esses crimes não podem ser atribuídos coletivamente à população muçulmana.
Da mesma forma, violências historicamente praticadas por determinadas autoridades cristãs não justificam responsabilizar todos os cristãos.
Precisamos distinguir pessoas, instituições, governos e movimentos extremistas.
A generalização também é uma forma de preconceito.
E combater uma perseguição por meio da perseguição a outro grupo apenas reproduz o mecanismo que deveríamos enfrentar.
10. A perseguição política e a transformação do adversário em inimigo
Os extremismos políticos também deixaram marcas profundas na História.
O nazismo e o fascismo estabeleceram regimes autoritários que perseguiram opositores e restringiram direitos.
Na União Soviética de Stalin, expurgos políticos, deportações, prisões e execuções atingiram milhões de pessoas.
No Camboja, o Khmer Vermelho promoveu políticas de violência extrema entre 1975 e 1979.
Na América Latina, diferentes ditaduras perseguiram estudantes, professores, trabalhadores, jornalistas e lideranças políticas.
No Brasil, o regime militar instaurado em 1964 utilizou censura, repressão, tortura e outras graves violações de direitos humanos.
O autoritarismo não pode ser compreendido apenas pela identificação ideológica declarada pelos governantes.
Precisamos examinar suas práticas.
A perseguição de adversários.
A supressão do pluralismo.
A utilização da violência política.
O controle da informação.
A concentração do poder.
A transformação de críticas em supostas ameaças ao Estado.
A História demonstra que a democracia exige mais do que eleições.
Exige limites ao poder, instituições responsáveis, garantias jurídicas e proteção das liberdades fundamentais.
11. Perseguições étnicas: quando a identidade se transforma em condenação
A violência contra grupos étnicos também marcou diferentes sociedades.
No genocídio armênio, durante o Império Otomano, em 1915 e nos anos seguintes, deportações e massacres provocaram a morte de grande número de armênios.
No século XX, o apartheid sul-africano institucionalizou a segregação racial e restringiu direitos da população negra.
Em Ruanda, no ano de 1994, a propaganda extremista e a mobilização de milícias contribuíram para o genocídio contra os tutsis.
Também foram assassinados hutus que se opunham à violência.
A classificação de pessoas por sua origem passou a determinar quem poderia viver em segurança e quem seria considerado um inimigo.
Esses acontecimentos possuem contextos históricos próprios e não devem ser tratados como episódios idênticos.
Entretanto, revelam como identidades coletivas podem ser manipuladas para legitimar exclusão, perseguição e assassinatos.
A diferença étnica, por si só, não produz violência.
A violência surge de processos políticos, institucionais e sociais que transformam essa diferença em instrumento de dominação.
12. Mulheres, ciência e pensamento independente: outras formas de perseguição
Ao longo da História, mulheres enfrentaram restrições educacionais, jurídicas, econômicas e políticas.
Em diferentes sociedades, foram impedidas de participar de instituições de ensino, exercer determinadas profissões ou administrar seus próprios bens.
A perseguição por motivos de gênero não se limitou aos julgamentos de bruxaria.
Ela também apareceu em normas e práticas que restringiam a autonomia feminina.
Do mesmo modo, pesquisadores, filósofos e intelectuais enfrentaram censura e punições em diferentes períodos.
Galileu Galilei, por exemplo, foi julgado pela Inquisição romana em 1633 em razão da defesa do heliocentrismo e das controvérsias científicas e teológicas de seu tempo.
Sua experiência não deve ser simplificada como uma guerra eterna entre ciência e religião.
As relações históricas entre conhecimento científico e instituições religiosas foram muito mais complexas.
Mas o episódio demonstra os riscos existentes quando autoridades procuram impor limites coercitivos à investigação intelectual.
O conhecimento se desenvolve por meio de observações, hipóteses, questionamentos, debates e revisão de conclusões.
Uma sociedade que proíbe perguntas enfraquece sua capacidade de aprender.
13. A intolerância contra pessoas com deficiência, neurodivergentes e outras minorias
Também precisamos reconhecer perseguições dirigidas a pessoas consideradas diferentes por suas características físicas, cognitivas ou comportamentais.
O regime nazista promoveu políticas de esterilização compulsória e assassinato de pessoas com deficiência.
O programa de extermínio conhecido como Aktion T4 resultou no assassinato de milhares de pessoas, sob justificativas eugênicas e de suposta inadequação social.
Essas práticas demonstram como conceitos falsamente apresentados como científicos podem ser utilizados para legitimar a violência.
A eugenia procurou classificar seres humanos segundo critérios de suposto valor biológico ou social.
Suas aplicações coercitivas produziram graves violações de direitos.
Atualmente, pessoas com deficiência e neurodivergentes ainda podem enfrentar discriminação, infantilização, exclusão educacional, barreiras profissionais e violência.
É necessário compreender que características neurológicas, cognitivas ou funcionais não retiram a dignidade humana.
A diversidade não pode ser transformada em motivo para negar direitos.
E aqui também precisamos diferenciar condições individuais de atitudes persecutórias.
Rigidez cognitiva, por exemplo, não significa necessariamente intolerância moral.
Pessoas neurodivergentes não devem ser associadas automaticamente ao extremismo.
A violência e a discriminação resultam de processos que exigem análise própria, sem explicações estigmatizantes.
14. O que a Psicologia pode explicar sobre a adesão ao extremismo?
Do ponto de vista psicológico, o extremismo envolve fenômenos complexos.
Entre eles podem estar a identificação intensa com um grupo, a percepção de ameaça, a necessidade de pertencimento, a hostilidade ao grupo considerado adversário e a aceitação de justificativas para comportamentos prejudiciais.
A Psicologia Social estuda há décadas os mecanismos pelos quais indivíduos modificam suas atitudes e comportamentos em contextos coletivos.
A teoria da identidade social, desenvolvida por Henri Tajfel e John Turner, ajuda a compreender como as pessoas constroem parte de sua identidade a partir dos grupos aos quais pertencem.
A pesquisa de Albert Bandura sobre desengajamento moral demonstra como indivíduos podem desenvolver justificativas que reduzem o reconhecimento da gravidade de suas próprias condutas.
A obra de Hannah Arendt também contribui para refletir sobre responsabilidade individual, burocracia, autoridade e normalização de práticas violentas.
Essas contribuições não significam que todos os extremistas possuam uma mesma personalidade ou condição psicológica.
Também não permitem afirmar que a intolerância seja necessariamente resultado de baixo nível intelectual.
Pessoas podem possuir conhecimento técnico e, ainda assim, utilizar sua inteligência para justificar preconceitos.
Podem ser competentes profissionalmente e apresentar profundo comprometimento com ideias desumanizadoras.
Por isso, considero mais adequado falar em empobrecimento da reflexão crítica, fechamento ao diálogo e desengajamento moral, conforme cada situação, do que simplesmente associar extremismo à falta de inteligência.
O problema não é apenas não saber.
É também aquilo que uma pessoa decide fazer com o conhecimento que possui, com as influências que recebe e com o poder que exerce sobre os outros.
15. As redes sociais e a transformação da hostilidade em espetáculo
A intolerância contemporânea encontrou novos instrumentos de circulação.
Mensagens, vídeos, fotografias e discursos podem alcançar milhões de pessoas em poucos instantes.
As redes sociais também possibilitam educação, organização coletiva e denúncias importantes.
Entretanto, determinados ambientes digitais favorecem a circulação de conteúdos destinados a provocar medo, indignação e hostilidade.
Quando pessoas são constantemente expostas a mensagens que apresentam determinados grupos como ameaças, podem passar a interpretar acontecimentos cotidianos por meio dessas narrativas.
A repetição não transforma uma mentira em verdade.
Mas pode produzir familiaridade e reduzir a disposição de questioná-la.
A difusão de desinformação, teorias conspiratórias e ataques pessoais pode contribuir para ambientes de polarização intensa.
Nesses espaços, humilhar alguém pode gerar aprovação do grupo.
A agressividade pode ser confundida com coragem.
A recusa ao diálogo pode ser apresentada como fidelidade.
E a complexidade das questões sociais acaba sendo substituída por explicações simples, que oferecem culpados facilmente identificáveis.
Precisamos ensinar as pessoas a reconhecer esse mecanismo.
Não apenas para evitar a disseminação de informações falsas.
Mas para proteger a capacidade de pensar de maneira independente.
16. Quando o extremismo deixa de ser uma opinião e passa a configurar crime?
Essa distinção é fundamental.
No Brasil, a Constituição Federal garante a liberdade de pensamento, consciência, crença e manifestação, observados os limites constitucionais.
Discordar de uma religião não é, por si só, crime.
Criticar um governo não é crime.
Defender uma corrente política, inclusive uma posição considerada radical, não constitui automaticamente crime.
Questionar ideias e instituições faz parte de uma sociedade democrática.
Entretanto, determinadas condutas podem ultrapassar o campo da opinião e configurar ilícitos.
A Lei nº 7.716/1989 estabelece crimes relacionados à discriminação e ao preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
A Lei nº 14.532/2023 ampliou a proteção penal relacionada à injúria racial e a diferentes práticas discriminatórias.
O Código Penal também prevê crimes como ameaça, perseguição reiterada e lesão corporal.
A prática, o induzimento ou a incitação à discriminação e ao preconceito podem configurar crimes quando preenchidos os requisitos legais.
A legislação brasileira também pune determinadas formas de divulgação do nazismo por meio da utilização de símbolos para essa finalidade.
Mas é necessário evitar generalizações.
Nem toda opinião ofensiva corresponde automaticamente a um crime.
Nem todo conflito interpessoal é perseguição penalmente caracterizada.
Nem todo posicionamento político radical representa ameaça ilícita.
A avaliação jurídica depende do conteúdo, da conduta, do contexto e das condições previstas na legislação.
O princípio é simples, embora sua aplicação exija rigor:
As pessoas possuem o direito de discordar. Não possuem um direito ilimitado de ameaçar, perseguir, discriminar ou agredir.
17. A violência que não deixa marcas visíveis
Quando pensamos em perseguição, costumamos imaginar agressões físicas, prisões e mortes.
Mas a violência também pode aparecer de maneira menos evidente.
Na humilhação repetida.
Na exclusão deliberada.
Na intimidação.
Na propagação de mentiras para destruir a reputação de alguém.
Na desqualificação constante.
Na ameaça de retirar oportunidades.
No uso da posição de autoridade para impor medo e submissão.
Essas situações podem acontecer em ambientes familiares, religiosos, profissionais, escolares e comunitários.
Não significa que toda discordância ou conflito represente violência psicológica.
Precisamos examinar a frequência, o contexto, a gravidade e as consequências dos comportamentos.
Entretanto, experiências persistentes de hostilidade podem produzir sofrimento emocional significativo.
Ansiedade, insegurança, isolamento, hipervigilância e dificuldades de confiança podem aparecer em pessoas submetidas a perseguições.
E a violência não atinge apenas a vítima direta.
Também pode comprometer famílias, comunidades e instituições.
Quando as pessoas começam a temer manifestar opiniões, participar de atividades coletivas ou exercer seus direitos, toda a sociedade perde.
18. O silêncio diante da perseguição: medo, omissão e responsabilidade
A História também nos obriga a perguntar sobre o papel daqueles que presenciam injustiças.
Durante perseguições religiosas, guerras, ditaduras e genocídios, existiram pessoas que participaram diretamente da violência.
Mas também existiram aquelas que se beneficiaram da exclusão, colaboraram com autoridades ou permaneceram indiferentes.
É importante reconhecer que o silêncio nem sempre significa concordância.
Muitas pessoas se calam por medo, dependência econômica, ameaça ou ausência de condições para agir.
Não podemos exigir heroísmo de todas as vítimas ou testemunhas.
Entretanto, instituições e autoridades que possuem meios efetivos de proteger direitos assumem responsabilidades particulares quando ignoram violações.
A resistência também pode acontecer de maneiras diferentes.
Na proteção de pessoas perseguidas.
Na preservação de documentos.
Na educação.
Na denúncia responsável.
Na produção científica.
No acolhimento.
Na recusa em compartilhar informações falsas.
Na defesa de garantias jurídicas.
E na disposição de reconhecer que o sofrimento de alguém não se torna aceitável apenas porque essa pessoa pertence a um grupo diferente.
19. O que precisamos aprender com tantas civilizações e perseguições?
Ao percorrer a História dos povos celtas, do Império Romano, das comunidades cristãs, das sociedades medievais, da colonização, das perseguições religiosas e dos regimes autoritários modernos, encontramos acontecimentos muito diferentes.
Não podemos tratá-los como se fossem equivalentes em suas causas, dimensões ou consequências.
Cada experiência precisa ser compreendida dentro de seu contexto histórico.
Entretanto, algumas perguntas aparecem repetidamente.
Quem possui o poder de definir o que é considerado aceitável?
Quem decide quais grupos pertencem plenamente à sociedade?
Quem é apresentado como ameaça?
Quais interesses são protegidos quando determinadas pessoas são excluídas?
Que discursos são utilizados para justificar a violência?
E quais instituições deveriam proteger aqueles que estão sendo perseguidos?
Essas perguntas não pertencem apenas ao passado.
Elas continuam necessárias no mundo contemporâneo.
Porque uma sociedade pode desenvolver tecnologias extraordinárias e ainda reproduzir preconceitos antigos.
Pode ampliar o acesso à educação e continuar disseminando desinformação.
Pode defender publicamente a paz enquanto tolera práticas de humilhação.
Pode celebrar a liberdade e, ao mesmo tempo, desejar restringi-la quando alguém pensa diferente.
Esse é um dos grandes paradoxos da experiência humana.
20. A diferença não é uma ameaça à existência do outro
Uma sociedade plural não exige que todas as pessoas abandonem suas convicções.
Podemos ser religiosos, agnósticos ou ateus.
Podemos defender diferentes correntes políticas.
Podemos participar de culturas distintas.
Podemos possuir valores, experiências e perspectivas diferentes.
O respeito não exige concordância.
Exige reconhecer que nenhuma pessoa perde sua dignidade por não compartilhar nossas ideias.
Também precisamos compreender que tolerância não significa aceitar violência ou discriminação.
Uma sociedade democrática pode e deve estabelecer limites jurídicos para proteger direitos.
A liberdade de pensamento não elimina a responsabilidade pelos atos.
A fé não elimina a responsabilidade ética.
A convicção política não elimina a responsabilidade civil.
E nenhuma identidade coletiva deveria ser utilizada como autorização para perseguir pessoas.
O verdadeiro amadurecimento humano não está em conseguir impor nossas certezas, mas em reconhecer que nossa existência não depende da destruição das diferenças.
Considerações finais — Quando a convicção cega, a humanidade sangra
Ao longo da História, vimos povos submetidos pela conquista, tradições religiosas reprimidas, mulheres condenadas por acusações infundadas, comunidades judaicas perseguidas, pessoas escravizadas, grupos étnicos transformados em inimigos e adversários políticos submetidos à violência.
Vimos também pessoas que resistiram.
Que protegeram perseguidos.
Que preservaram conhecimentos.
Que ensinaram.
Que denunciaram crimes.
Que reconstruíram comunidades.
Que defenderam direitos mesmo quando isso representava riscos pessoais.
Essa parte da História também precisa ser lembrada.
Porque a humanidade não é constituída apenas pelos episódios de violência que produziu.
É também formada pelas iniciativas de resistência, solidariedade e reconstrução.
Como professora de História, considero que nosso compromisso não pode ser apenas apresentar acontecimentos.
Precisamos compreender os processos que permitiram que acontecessem.
Como educadora, acredito que o conhecimento histórico precisa ampliar a autonomia intelectual e a capacidade de questionamento.
Como psicanalista, considero importante refletirmos sobre nossas próprias convicções, nossos medos, nossas identificações e os limites da nossa capacidade de conviver com diferenças.
Não precisamos transformar todas as divergências em conflitos.
Não precisamos transformar todas as críticas em ofensas pessoais.
E não precisamos transformar nossas crenças em instrumentos de poder sobre a vida de outras pessoas.
Há uma diferença enorme entre defender uma ideia e desejar eliminar quem não concorda com ela.
Há uma distância imensa entre professar uma fé e perseguir alguém por possuir outra.
Há uma diferença fundamental entre criticar um comportamento e retirar a dignidade de uma pessoa.
O perigo começa quando essas diferenças desaparecem.
Quando o sofrimento alheio passa a ser celebrado.
Quando a humilhação vira entretenimento.
Quando a violência é apresentada como virtude.
Quando o diálogo é substituído pela ameaça.
Quando alguém passa a acreditar que sua própria certeza vale mais do que a vida, a liberdade e os direitos do outro.
Não é preciso pensar igual para viver em paz.
Não é preciso acreditar nas mesmas coisas para respeitar a dignidade humana.
E não é necessário abandonar nossas convicções para reconhecer que outras pessoas também possuem direitos.
A História já demonstrou, inúmeras vezes, as consequências de transformar diferenças em perseguição.
Que não precisemos de novas tragédias para compreender aquilo que tantas gerações aprenderam por meio do sofrimento.
Que tenhamos conhecimento suficiente para reconhecer a manipulação.
Sensibilidade para perceber o sofrimento.
Responsabilidade para não reproduzir preconceitos.
E coragem para questionar nossas próprias certezas quando elas começarem a justificar a desumanização de alguém.
Porque a convicção que não aceita perguntas pode se transformar em fanatismo.
O fanatismo que encontra poder pode se transformar em perseguição.
E a perseguição que encontra uma sociedade indiferente pode produzir tragédias que jamais deveriam se repetir.
A humanidade não precisa de pessoas que pensem todas da mesma maneira. Precisa de pessoas capazes de pensar sem desumanizar.
Andrea Dias
Professora de História | Educadora | Psicanalista | Especialista em Neurodivergência
Consultório NeuroAcolhe — Acolhimento, conhecimento e respeito à diversidade humana.
Referências para acompanhar a publicação
Para sustentar especialmente os novos capítulos, selecionei fontes históricas e documentais que podem acompanhar o artigo.
Assunto Referência
Povos celtas, druidas e conquista romana English Heritage — Religião na Britânia romana
English Heritage
Caça às bruxas e estimativas históricas English Heritage — Mitos e fatos históricos
English Heritage
Boicote nazista aos estabelecimentos judaicos Museu Memorial do Holocausto — 1933
Enciclopédia do Holocausto
Genocídio contra os yazidis ONU — Investigações sobre Sinjar
United Nations in Iraq
Perseguição à comunidade bahá'í Human Rights Watch — Irã
HRW
Discriminação racial e religiosa no Brasil Lei nº 7.716/1989 — Texto atualizado
Portal da Câmara dos Deputados
Bibliografia complementar: Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo; Albert Bandura, Moral Disengagement; Henri Tajfel, Human Groups and Social Categories; Theodor Adorno e colaboradores, The Authoritarian Personality; Silvia Federici, Calibã e a Bruxa; Carlo Ginzburg, História Noturna; e Christopher Browning, Ordinary Men.
Conteúdo autoral, histórico, educativo e reflexivo. Reprodução mediante autorização ou com atribuição expressa de autoria e fonte. Não substitui orientação jurídica, avaliação clínica ou estudo especializado dos contextos históricos apresentados.
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