sexta-feira, 6 de novembro de 2026
QUANDO A HISTÓRIA ATRAVESSA FRONTEIRAS
A virada brasileira, a força das ruas e as transformações políticas que movimentam o mundo
Por Andrea Dias — Historiadora, Educadora e Terapeuta
6 de novembro de 2026
Existem momentos na História em que acontecimentos aparentemente separados começam a revelar questões comuns.
Em outubro e novembro de 2026, o mundo assistiu a uma sucessão de mobilizações populares, eleições e crises políticas que merece ser estudada com atenção.
No Brasil, uma eleição presidencial terminou com uma virada histórica no segundo turno. Na Sérvia, um movimento nascido de protestos estudantis derrotou um partido que dominava a política nacional havia anos. Nos Estados Unidos, o Partido Democrata conquistou o controle das duas casas do Congresso. Na Europa, manifestações de jovens e trabalhadores ganharam força. No Paraguai, uma crise bancária provocou protestos e colocou em questão a continuidade de um governo.
É natural observarmos esses acontecimentos e perguntarmos se estamos diante de uma transformação internacional mais ampla.
Como professora de História, considero essa pergunta fundamental.
Mas precisamos compreender que acontecimentos próximos no tempo não são necessariamente produzidos uns pelos outros.
A História exige investigar as causas, os interesses, as condições sociais e os processos anteriores.
O que chama a atenção não é apenas a sucessão das datas, mas o protagonismo adquirido pela participação coletiva em diferentes sociedades.
O Brasil e a virada de 25 de outubro
Em 4 de outubro de 2026, o primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras terminou com Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva.
A diferença parecia estabelecer um cenário eleitoral difícil para o presidente.
Entretanto, durante as três semanas seguintes, ocorreram mobilizações que envolveram movimentos estudantis, artistas, trabalhadores, organizações políticas, lideranças sociais e milhões de cidadãos.
As ruas voltaram a ocupar posição central na disputa.
As redes digitais adquiriram importância extraordinária.
O movimento conhecido como Exército do Lula, organizado por André Janones, reuniu milhões de participantes no WhatsApp e tornou-se um dos fenômenos de comunicação política mais comentados daquele período.
Mas houve também pessoas que saíram de casa, participaram de manifestações e procuraram convencer outros cidadãos por meio de conversas e atividades coletivas.
Em 25 de outubro, Lula venceu o segundo turno com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos.
Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.
Foi a primeira vez, nas eleições presidenciais brasileiras sob o atual sistema de dois turnos, que um candidato terminou o primeiro turno atrás de seu adversário e venceu a votação final.
A importância histórica desse resultado não se limita à trajetória pessoal do presidente.
A eleição também demonstrou a capacidade de reorganização de forças políticas, movimentos sociais e eleitores.
Entretanto, o resultado apertado revelou um país profundamente dividido.
A vitória de uma candidatura não elimina as convicções dos milhões de cidadãos que escolheram outra.
A democracia continua exigindo diálogo, respeito aos direitos e fiscalização permanente dos governantes.
Quando um símbolo nacional atravessa fronteiras
Poucos dias depois da eleição brasileira, começaram a aparecer imagens que chamaram minha atenção.
O gesto do “L”, associado à campanha de Lula, passou a ser reproduzido por lideranças e participantes de movimentos políticos fora do Brasil.
Em 26 de outubro, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum realizou o gesto durante uma entrevista coletiva.
Na Espanha, lideranças progressistas, incluindo Ada Colau, utilizaram o símbolo em manifestações e eventos políticos.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, interpretou a vitória brasileira como um possível sinal de reorganização internacional das forças progressistas.
Na França, movimentos políticos também passaram a observar estratégias de mobilização digital utilizadas no Brasil.
Jean-Luc Mélenchon adotou iniciativas de comunicação por WhatsApp que foram comparadas ao modelo brasileiro.
Na Argentina, organizações peronistas passaram a desenvolver estratégias digitais semelhantes.
Também houve registros do gesto em manifestações na Itália e em outros países.
Em 5 de novembro, o próprio Lula comentou publicamente a circulação internacional do símbolo.
É interessante observar como um gesto simples pode adquirir novos significados conforme atravessa fronteiras.
Historicamente, símbolos políticos sempre desempenharam funções importantes.
A Revolução Francesa popularizou representações de liberdade, cidadania e transformação política.
Movimentos trabalhistas utilizaram bandeiras, cores, músicas e gestos para construir identidades coletivas.
Movimentos feministas, antirracistas e de defesa dos direitos civis também desenvolveram símbolos reconhecidos internacionalmente.
Esses símbolos não substituem programas políticos ou propostas concretas.
Mas podem transmitir pertencimento e reconhecimento entre pessoas que compartilham determinadas aspirações.
O “L” de Lula continua sendo um símbolo partidário e eleitoral brasileiro. Entretanto, sua utilização em outros países demonstra que determinados movimentos passaram a associá-lo a uma experiência de mobilização política que consideram inspiradora.
Isso não significa que todos aqueles que fazem o gesto compartilhem exatamente os mesmos objetivos.
Tampouco significa que o símbolo represente universalmente a liberdade.
Seu significado depende de quem o utiliza e do contexto.
Mas sua circulação internacional já constitui um fenômeno político e cultural digno de registro.
A Sérvia: estudantes e a transformação de uma insatisfação em força eleitoral
No mesmo dia em que o Brasil realizava seu segundo turno, a Sérvia também vivia uma eleição histórica.
O movimento estudantil que conquistou a vitória parlamentar havia surgido muito antes, após o desabamento de uma cobertura na estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, que deixou 16 mortos.
O episódio provocou indignação e acusações de corrupção e negligência.
Durante quase dois anos, estudantes organizaram manifestações, paralisações e ações públicas.
As mobilizações cresceram e passaram a expressar reivindicações relacionadas à transparência, à responsabilidade institucional e à democracia.
Em 25 de outubro de 2026, a lista apoiada pelos estudantes venceu as eleições parlamentares.
Os resultados definitivos atribuíram-lhe 140 das 250 cadeiras do Parlamento.
A vitória encerrou um longo período de domínio político do Partido Progressista Sérvio.
Não podemos afirmar que o resultado brasileiro provocou essa mudança, porque os dois processos eleitorais ocorreram no mesmo dia e o movimento sérvio já possuía uma trajetória própria.
Mas podemos identificar uma característica comum: a passagem da insatisfação social para uma organização capaz de produzir resultados eleitorais.
É uma experiência que merece ser estudada ao lado de outras mobilizações estudantis da História.
Os jovens não participaram apenas como espectadores.
Conseguiram transformar um movimento de protesto em uma força institucional.
Ainda será necessário acompanhar como esse grupo exercerá o poder e responderá às expectativas que mobilizou.
A conquista eleitoral representa o início de uma nova etapa, não a resolução automática dos problemas nacionais.
A Europa e as novas mobilizações
Em diferentes países europeus, manifestações se intensificaram no final de outubro e no início de novembro.
Na França, protestos reuniram pessoas insatisfeitas com o custo de vida, a situação dos serviços públicos e outras decisões governamentais.
Na Alemanha, jovens organizaram manifestações relacionadas à educação, ao futuro econômico e às prioridades políticas.
Na Itália, protestos envolveram trabalhadores e grupos atingidos pelo aumento dos custos.
Em Portugal, movimentos também discutiram o acesso à moradia e a dificuldade das novas gerações em alcançar condições adequadas de vida.
É necessário distinguir esses movimentos das manifestações que utilizaram diretamente o símbolo de Lula.
Embora tenham ocorrido em um período próximo, possuem pautas, organizações e origens próprias.
Nem todos são movimentos partidários.
Nem todos possuem a mesma orientação ideológica.
E nem todos foram influenciados pelo resultado eleitoral brasileiro.
Entretanto, mostram uma inquietação presente em diferentes sociedades.
Muitos jovens questionam a possibilidade de alcançar condições de vida semelhantes às das gerações anteriores.
O custo da habitação, a precarização de determinadas relações de trabalho, as mudanças climáticas, os conflitos internacionais e as dificuldades de acesso a serviços públicos aparecem entre as preocupações.
Essas reivindicações nos recordam que a democracia não se resume à escolha periódica dos representantes.
Também envolve a capacidade da população de expressar demandas, organizar movimentos e participar da definição de políticas públicas.
Estados Unidos: uma mudança de poder dentro das instituições
Em 3 de novembro de 2026, os Estados Unidos realizaram suas eleições legislativas de meio de mandato.
O Partido Democrata conquistou maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado.
O resultado representou uma mudança importante no equilíbrio institucional durante o governo de Donald Trump.
As análises eleitorais destacaram a insatisfação de parte dos eleitores com o custo de vida, a guerra com o Irã e diferentes decisões do governo.
Vitórias democratas ocorreram inclusive em estados tradicionalmente associados ao Partido Republicano.
O resultado não significou a saída de Donald Trump da Presidência.
Significou uma redistribuição do poder legislativo, com consequências para a aprovação de leis, o orçamento, as investigações parlamentares e a fiscalização do Executivo.
Também revelou que a escolha feita por uma população em uma eleição presidencial não determina permanentemente todas as eleições seguintes.
Os eleitores podem modificar suas decisões diante de novas condições.
Essa é uma característica importante dos sistemas democráticos.
Embora a mudança norte-americana tenha acontecido poucos dias depois da eleição brasileira, não há evidências suficientes para afirmar que foi provocada por ela.
As campanhas, as pesquisas, os problemas econômicos e os conflitos políticos norte-americanos já existiam.
Mas os dois resultados passaram a ser analisados internacionalmente como acontecimentos relevantes para a reorganização do cenário político.
O Paraguai: quando uma crise econômica alcança o centro do poder
No Paraguai, os acontecimentos de novembro possuem uma origem diferente.
Uma crise envolvendo o banco digital ueno provocou a intervenção do Banco Central e impediu numerosos clientes de acessar temporariamente seus recursos.
O problema atingiu correntistas, trabalhadores e aposentados.
As dificuldades financeiras provocaram protestos nas ruas de Assunção.
Ao mesmo tempo, vieram à tona questionamentos sobre vínculos entre integrantes da administração pública, autoridades regulatórias e o setor financeiro.
O presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia em 5 de novembro, mas, até 6 de novembro, ela ainda não havia sido formalmente aceita pelo Senado.
O Parlamento também iniciou procedimentos relacionados ao impeachment.
As acusações envolvem possíveis conflitos de interesse, interferência regulatória e outras irregularidades.
Peña nega ter cometido ilícitos, e as questões permanecem submetidas aos procedimentos institucionais e judiciais.
Aqui, novamente, precisamos evitar interpretações precipitadas.
Não existem elementos que permitam atribuir a crise paraguaia à vitória de Lula.
O episódio possui causas econômicas e políticas próprias.
Mas revela como uma crise financeira pode ultrapassar os limites do sistema bancário e atingir diretamente a confiança da população nas instituições.
Quando as economias de milhares de famílias ficam ameaçadas, as consequências deixam de ser apenas contábeis.
Tornam-se sociais, humanas e políticas.
O que todos esses acontecimentos possuem em comum?
Brasil, Sérvia, Estados Unidos, países europeus e Paraguai apresentam realidades muito diferentes.
Não vivem o mesmo regime político.
Não possuem as mesmas instituições.
Não enfrentam problemas idênticos.
E suas populações não defendem necessariamente os mesmos projetos.
Entretanto, existe uma questão que atravessa todos esses acontecimentos: a relação entre sociedade, poder e participação.
No Brasil, houve uma mobilização intensa durante o segundo turno.
Na Sérvia, estudantes transformaram anos de protestos em uma vitória parlamentar.
Nos Estados Unidos, eleitores modificaram a composição do Congresso.
Na Europa, movimentos sociais ampliaram suas manifestações.
No Paraguai, cidadãos foram às ruas exigir respostas diante de uma crise financeira.
São formas diferentes de participação, com resultados e motivações distintos.
Mas todas demonstram que as sociedades não permanecem necessariamente passivas diante das decisões de seus governantes.
A História não se move por contágio automático
Existe uma ideia que considero importante discutir.
Quando acontecimentos políticos semelhantes ocorrem em diferentes países, podemos ser tentados a imaginar que um necessariamente provocou o outro.
Entretanto, a História não funciona como uma sequência automática de dominós.
Uma mudança pode influenciar movimentos internacionais.
Um símbolo pode atravessar fronteiras.
Uma estratégia de mobilização pode ser reproduzida.
Um resultado eleitoral pode modificar expectativas.
Mas a influência precisa ser demonstrada.
Não basta que um acontecimento tenha ocorrido depois de outro.
Na História, distinguimos simultaneidade, repercussão, inspiração e causalidade.
Essa distinção é indispensável para não transformar uma interpretação interessante em uma afirmação sem comprovação.
A vitória de Lula tornou-se referência para determinados líderes e movimentos progressistas internacionais.
Isso está documentado.
O gesto do “L” passou a circular em outros países.
Isso também está documentado.
Mas os protestos europeus, as eleições sérvias, a disputa norte-americana e a crise paraguaia possuem trajetórias próprias.
O desafio intelectual é compreender tanto as conexões quanto as diferenças.
O que significa defender a democracia em um mundo polarizado?
Os acontecimentos recentes também mostram que a participação política não elimina os conflitos sociais.
Governos continuam enfrentando críticas.
Movimentos populares podem apresentar reivindicações contraditórias.
Partidos e lideranças podem utilizar símbolos semelhantes para defender propostas diferentes.
E uma vitória eleitoral não garante automaticamente a qualidade das decisões posteriores.
Direita democrática, esquerda democrática, liberalismo, conservadorismo e outras correntes podem disputar legitimamente projetos políticos.
A questão essencial é preservar as condições que permitem essa disputa.
Eleições livres.
Direitos fundamentais.
Liberdade de expressão.
Pluralismo.
Responsabilidade institucional.
Fiscalização do poder.
Proteção contra a violência política.
Uma democracia não pode depender da existência de um único líder considerado indispensável.
Sua força está na capacidade das instituições e da sociedade de garantir direitos, inclusive aos cidadãos que discordam de quem governa.
A História está sendo escrita — e precisamos aprender a lê-la
Nasci durante a ditadura militar brasileira.
Cresci acompanhando a luta de minha mãe por direitos sociais, pela educação e pela participação democrática.
Desde muito jovem, compreendi que a História não acontece apenas nos palácios e nos gabinetes.
Ela também acontece nas ruas, nas escolas, nas comunidades e nas decisões de pessoas comuns.
Por isso, os acontecimentos de outubro e novembro de 2026 despertam em mim uma reflexão especial.
Não apenas porque uma eleição brasileira chamou a atenção internacional.
Mas porque podemos observar diferentes sociedades questionando seus caminhos, reorganizando forças políticas e procurando respostas para problemas que afetam suas vidas.
É importante reconhecer a capacidade de participação da população sem idealizar todos os movimentos.
É importante compreender a circulação internacional de símbolos sem atribuir a eles poderes que não possuem.
E é essencial preservar o rigor histórico mesmo quando um acontecimento desperta emoções profundas.
Como historiadora, acredito que nosso compromisso é registrar o que aconteceu, investigar por que aconteceu e distinguir nossas interpretações daquilo que os documentos efetivamente comprovam.
Como educadora, acredito que precisamos ensinar as novas gerações a compreender esses processos sem depender exclusivamente de discursos partidários ou de informações compartilhadas nas redes sociais.
E, como terapeuta, também observo a importância do pertencimento, da esperança, do medo e da identificação coletiva na maneira como as pessoas participam dos acontecimentos políticos.
A História é feita de instituições, economia, cultura, conflitos e relações de poder.
Mas também é feita de experiências humanas.
Considerações finais — Quando a participação de um povo inspira outras sociedades
A vitória brasileira de 25 de outubro de 2026 adquiriu repercussão internacional.
Sua mobilização popular foi estudada e comentada.
Seu símbolo eleitoral foi reproduzido por lideranças de outros países.
E suas estratégias de organização digital passaram a despertar interesse fora do Brasil.
Ao mesmo tempo, outros acontecimentos internacionais mostraram que diferentes sociedades também atravessam momentos de contestação e transformação política.
Não sabemos ainda quais serão as consequências duradouras desses processos.
Não podemos afirmar que todos caminham para uma mesma direção.
Mas podemos reconhecer que estamos diante de um período de intensa movimentação política.
A sociedade brasileira não deve ser apresentada como responsável por todas essas mudanças.
Também não deve ter sua participação minimizada.
É possível reconhecer a importância histórica do que aconteceu aqui e, simultaneamente, respeitar o protagonismo dos outros povos.
Um acontecimento pode inspirar sem ser a causa de tudo.
Um símbolo pode atravessar fronteiras sem representar uma ideologia universal.
Uma eleição pode modificar expectativas sem encerrar as disputas pelo poder.
E uma sociedade pode participar ativamente da História sem que isso signifique o desaparecimento de seus conflitos internos.
Talvez essa seja a reflexão mais importante deste momento:
A História não é uma estrada construída previamente para que os povos apenas a percorram.
Ela é resultado de escolhas, disputas, mobilizações, condições materiais, decisões institucionais e ações humanas.
O Brasil de outubro de 2026 tornou-se parte de uma narrativa internacional que ainda está sendo construída.
A Sérvia vive sua própria transformação.
Os Estados Unidos enfrentam uma nova composição de forças políticas.
A Europa presencia mobilizações sociais importantes.
E o Paraguai atravessa uma crise institucional de consequências ainda indefinidas.
Essas histórias se cruzam, mas não se confundem.
E cabe a nós estudá-las com a seriedade que merecem.
Porque registrar a História exige mais do que celebrar acontecimentos. Exige compreender suas origens, suas contradições e suas consequências para a vida das pessoas.
Andrea Dias
Historiadora | Educadora | Terapeuta
Professora de História — Especialista em Neurodivergência
6 de novembro de 2026
Texto histórico-reflexivo fundamentado em documentos eleitorais, reportagens internacionais e análise comparativa. Os acontecimentos descritos permanecem sujeitos a novos desdobramentos.
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Compreender antes de julgar: a importância do conhecimento político
Uma das maiores dificuldades do debate político contemporâneo é a confusão entre conceitos históricos, econômicos e filosóficos.
Capitalismo, socialismo, comunismo e anarquismo não são expressões equivalentes, assim como liberalismo, conservadorismo, social-democracia e fascismo não representam uma mesma forma de organização política.
Cada corrente possui origens, princípios, divergências internas e experiências históricas próprias.
O capitalismo é predominante na economia mundial, mas apresenta diferentes graus de intervenção estatal e proteção social.
O socialismo reúne projetos distintos de controle social da produção, enquanto o comunismo, na concepção marxista clássica, propõe uma sociedade sem classes e sem Estado coercitivo — condição que não corresponde à organização dos países historicamente chamados de comunistas.
O anarquismo, por sua vez, não significa ausência de organização, mas questionamento da autoridade imposta e defesa de formas voluntárias de autogestão.
Também é fundamental compreender que a existência de escolas públicas, serviços de saúde, aposentadorias e programas de assistência social não transforma automaticamente uma sociedade capitalista em socialista.
Essas instituições podem ser resultado de lutas sociais, decisões políticas e compromissos constitucionais estabelecidos dentro do próprio capitalismo.
Como professora de História, considero indispensável que as pessoas conheçam as diferenças entre essas correntes antes de aceitarem discursos que as utilizam para provocar medo, preconceito ou hostilidade.
Conhecimento histórico não exige concordância política.
Exige investigação, comparação de fontes, compreensão dos contextos e disposição para reconhecer a complexidade da realidade.
Uma sociedade que conhece os conceitos políticos possui melhores instrumentos para compreender seus direitos, questionar seus governantes e participar conscientemente da vida democrática.
Andrea Dias — Professora de História e Educadora
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OS “ISMOS” ESTÃO MUDANDO
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## Entre o capitalismo, o socialismo, a democracia e as novas disputas pelo poder: o que está acontecendo com os sistemas políticos e econômicos do mundo?
*Uma reflexão histórica, científica e social sobre as transformações do século XXI.*
**Por Andrea Dias — Professora de História e Educadora**
### Introdução — Os sistemas não são fotografias: são construções históricas
Durante muito tempo, aprendemos a classificar os países por meio de grandes definições: capitalistas, socialistas, comunistas, liberais ou conservadores.
Essas denominações foram importantes para explicar diferentes concepções de economia, propriedade, trabalho, sociedade e poder.
Entretanto, existe uma questão fundamental que precisamos compreender: os sistemas políticos e econômicos não permanecem imutáveis.
Eles se transformam.
Assim como a sociedade feudal europeia foi gradualmente substituída por novas relações econômicas, o capitalismo industrial do século XIX não é idêntico ao capitalismo financeiro e tecnológico do século XXI.
O socialismo concebido por pensadores do século XIX também não corresponde automaticamente às experiências políticas e econômicas que foram desenvolvidas por governos socialistas ao longo do século XX.
E aquilo que hoje observamos na China, no Vietnã, em Cuba, nos Estados Unidos, no Brasil ou nos países europeus demonstra que essas transformações continuam acontecendo.
Não estamos necessariamente diante do desaparecimento das ideologias.
Estamos diante de suas adaptações, contradições, disputas e reinterpretações.
**Para compreender o mundo atual, não basta perguntar qual sistema um país afirma possuir. Precisamos investigar como sua economia funciona, quem controla os recursos, como o poder é exercido e quais são os resultados para a população.**
### 1. O capitalismo está mudando: o retorno do Estado à economia
O capitalismo se desenvolveu historicamente apoiado na propriedade privada dos meios de produção, no trabalho assalariado, nos mercados e na acumulação de capital.
Mas nunca existiu uma única forma de capitalismo.
Ao longo da História, tivemos experiências de capitalismo comercial, industrial, financeiro, monopolista e diferentes modelos de economia mista.
A partir das décadas de 1970 e 1980, políticas associadas ao neoliberalismo ganharam força em vários países.
Privatizações, liberalização comercial, desregulamentação e redução de determinadas formas de intervenção estatal passaram a ocupar posição central em muitas reformas econômicas.
Entretanto, acontecimentos posteriores modificaram esse cenário.
A crise financeira internacional de 2008 demonstrou a importância da atuação dos governos e dos bancos centrais para impedir o colapso de instituições financeiras e reduzir os efeitos da crise.
A pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, evidenciou a dependência das sociedades em relação aos sistemas públicos de saúde, à pesquisa científica, à logística internacional e à capacidade dos Estados de responder a emergências.
As disputas comerciais, a crise climática e os conflitos internacionais também levaram diversos governos a reconsiderar sua dependência de fornecedores estrangeiros.
Em 2026, observamos uma retomada importante das políticas industriais.
A União Europeia, por exemplo, lançou em fevereiro de 2025 o *Clean Industrial Deal*, destinado a fortalecer a indústria europeia e combinar competitividade econômica, investimentos e descarbonização.
No Brasil, a política Nova Indústria Brasil procura estimular a modernização industrial, a inovação tecnológica, a produtividade e a sustentabilidade.
Nos Estados Unidos, políticas tarifárias e de proteção de setores estratégicos mostram que medidas protecionistas podem ser defendidas inclusive por governos associados a correntes favoráveis ao mercado.
Isso revela uma contradição apenas aparente.
**O capitalismo não exige ausência de Estado. A questão histórica é como o Estado atua, quais interesses suas políticas atendem e como seus custos e benefícios são distribuídos.**
A tendência contemporânea não é simplesmente substituir o capitalismo por outro sistema.
Em muitos países, trata-se de reorganizá-lo diante de novas necessidades econômicas, tecnológicas, ambientais e geopolíticas.
### 2. A China e o Vietnã: governos comunistas com economias orientadas pelo mercado
Uma das transformações mais importantes da história econômica contemporânea ocorreu na China.
Desde as reformas iniciadas por Deng Xiaoping, em 1978, o país ampliou progressivamente a utilização dos mercados, a atividade empresarial privada e o investimento estrangeiro.
Entretanto, preservou a direção política do Partido Comunista Chinês.
A Constituição e as políticas oficiais continuam definindo o país como socialista.
Mas sua economia incorpora empresas privadas, concorrência, comércio internacional, propriedade estatal e forte planejamento estratégico.
Em abril de 2025, a China aprovou sua primeira lei nacional voltada especificamente à promoção do setor privado.
A legislação entrou em vigor em maio daquele ano.
Segundo informações oficiais, as empresas privadas respondem por mais de 60% do PIB e aproximadamente 80% dos empregos urbanos chineses.
O objetivo declarado é ampliar a segurança jurídica, o financiamento, a inovação e as condições de concorrência.
O Vietnã apresenta outra experiência significativa.
Desde o programa de reformas econômicas conhecido como *Đổi Mới*, iniciado em 1986, o país adotou mecanismos de mercado e ampliou investimentos privados.
Em maio de 2025, o governo vietnamita publicou a Resolução 68, atribuindo ao setor privado uma posição central no desenvolvimento nacional.
Segundo dados apresentados pelo próprio governo, esse setor já respondia por aproximadamente metade do PIB.
Essas experiências demonstram que países governados por partidos comunistas podem incorporar mercados e empresas privadas sem abandonar formalmente seus projetos socialistas.
Isso, porém, não significa que tenham realizado o comunismo teórico descrito na tradição marxista.
Também não permite concluir que a liberalização econômica tenha sido acompanhada por liberalização política equivalente.
É necessário distinguir as duas dimensões.
**Uma economia pode ampliar mercados e empresas privadas enquanto mantém uma estrutura política de partido único.**
A China e o Vietnã são exemplos fundamentais para compreender essa combinação.
### 3. Cuba: uma das maiores readequações econômicas desde 1959
Cuba oferece um exemplo ainda mais recente.
A Revolução Cubana de 1959 iniciou um processo que posteriormente levou à organização de uma economia socialista caracterizada por forte centralização estatal.
Durante décadas, a economia cubana manteve amplas restrições às atividades privadas.
Entretanto, o país passou a enfrentar dificuldades econômicas persistentes, agravadas por sanções externas, problemas estruturais de produtividade, escassez de combustíveis, limitações de investimento e crise de abastecimento.
Em junho de 2026, o governo cubano aprovou um pacote de 176 medidas de reforma econômica.
Entre as propostas estavam a ampliação da atividade empresarial privada, novas formas de investimento, maior autonomia comercial e abertura de setores anteriormente dominados pelo Estado.
Nos meses seguintes, foram anunciadas regulamentações para facilitar investimentos estrangeiros, contratações privadas e atividades ligadas ao turismo.
As mudanças estão entre as mais significativas desde a revolução.
Ao mesmo tempo, o governo afirmou que pretende preservar o controle público de setores considerados estratégicos, como saúde, ciência e serviços essenciais.
O caso cubano revela uma distinção importante entre necessidade de reforma econômica e mudança integral de regime político.
A abertura de mercados não significa, por si só, a implantação de uma democracia multipartidária.
Da mesma maneira, a preservação de serviços estatais não significa que todos os demais setores permaneçam sob planejamento central.
Ainda é necessário acompanhar a implementação concreta dessas medidas.
As condições econômicas de Cuba também não podem ser explicadas por uma causa isolada.
Sanções internacionais, decisões de política econômica, produtividade, infraestrutura e capacidade administrativa precisam ser examinadas conjuntamente.
A mudança de Cuba demonstra que até sistemas historicamente resistentes à abertura econômica podem passar por transformações profundas.
### 4. A social-democracia está sendo readequada: proteger direitos e financiar o Estado de bem-estar
Os países nórdicos são frequentemente apresentados como exemplos de socialismo.
Essa classificação é imprecisa.
Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia possuem economias predominantemente capitalistas, combinadas com ampla proteção social, serviços públicos e diferentes mecanismos redistributivos.
Essa organização é frequentemente associada à tradição social-democrata.
Mas também está passando por mudanças.
O envelhecimento populacional, os custos previdenciários, as transformações do trabalho, a imigração, a produtividade e as necessidades de financiamento dos serviços públicos têm produzido novas reformas.
Na Dinamarca, por exemplo, o governo e o Parlamento promoveram mudanças nas regras previdenciárias e na assistência social.
A idade legal de aposentadoria foi programada para alcançar 70 anos em 2040.
Também foram adotadas medidas para incentivar a permanência de pessoas mais velhas no mercado de trabalho.
Essas decisões demonstram que um Estado de bem-estar social não permanece inalterado.
Seus mecanismos são permanentemente discutidos, negociados e modificados.
As reformas podem buscar sustentabilidade financeira, maior inserção no trabalho e reorganização de benefícios, mas também suscitam debates sobre desigualdade, proteção dos mais vulneráveis e condições efetivas de envelhecimento.
A questão central é encontrar formas de conciliar proteção social, financiamento público, atividade econômica e direitos.
**A social-democracia contemporânea não enfrenta apenas o desafio de ampliar direitos, mas também o de preservar e adaptar conquistas sociais diante das mudanças demográficas e econômicas.**
### 5. O liberalismo econômico e o neoliberalismo também estão sendo testados
A Argentina representa um exemplo contemporâneo de reformas orientadas para maior liberalização econômica.
Desde o início do governo Javier Milei, em dezembro de 2023, foram implementadas políticas de ajuste fiscal, redução de subsídios, desregulamentação e ampliação de mecanismos de mercado.
Em 2026, o Fundo Monetário Internacional registrou avanços na redução da inflação e no equilíbrio fiscal, mas também apontou vulnerabilidades nas reservas internacionais, no emprego e na estabilidade econômica.
Esse caso demonstra por que não devemos avaliar uma política apenas por suas intenções declaradas.
A redução da inflação é um resultado econômico importante.
Mas a análise histórica também precisa observar os efeitos sobre salários, emprego, pobreza, investimento, serviços públicos e desigualdade.
Reformas de mercado podem produzir benefícios em determinadas dimensões e custos em outras.
Seus resultados também podem variar conforme o período analisado.
A avaliação científica exige comparar indicadores, examinar dados anteriores e posteriores às mudanças e considerar fatores externos.
Não basta afirmar que o Estado foi reduzido para concluir que a economia melhorou.
Também não basta identificar dificuldades sociais para afirmar que todas as reformas fracassaram.
É necessário investigar o conjunto das consequências.
### 6. Anarquismo, autogestão e novas formas de organização coletiva
O anarquismo também passou por diferentes transformações desde o século XIX.
Suas correntes compartilham críticas a formas coercitivas de autoridade e valorizam, de maneiras distintas, a autonomia, a associação voluntária e a autogestão.
Historicamente, essas ideias influenciaram sindicatos, cooperativas, movimentos comunitários e experiências revolucionárias.
Na Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939, organizações anarquistas e anarcossindicalistas desenvolveram experiências de coletivização agrícola, industrial e de gestão por trabalhadores.
No século XXI, princípios de horizontalidade, descentralização e autogestão aparecem em diferentes movimentos sociais.
Cooperativas de trabalhadores, redes de apoio mútuo e organizações comunitárias podem incorporar alguns desses princípios sem necessariamente se declararem anarquistas.
Uma experiência contemporânea importante foi a administração autônoma do nordeste da Síria, frequentemente associada ao confederalismo democrático e a formas descentralizadas de organização.
Entretanto, em 2026, acordos de integração com o Estado sírio e mudanças territoriais reduziram significativamente a autonomia anteriormente exercida por essa administração.
Esse exemplo revela uma dificuldade fundamental das experiências autônomas: sua continuidade depende também de condições militares, institucionais, econômicas e geopolíticas.
É importante não confundir todas as experiências descentralizadas com anarquismo em sentido estrito.
Mas também não devemos reduzir o anarquismo à ideia equivocada de desordem.
O debate sobre autogestão permanece presente nas discussões contemporâneas sobre democracia econômica e participação coletiva.
### 7. O trabalho está mudando mais rapidamente do que as leis
Talvez uma das transformações mais profundas do século XXI esteja acontecendo nas relações de trabalho.
O capitalismo industrial foi construído em torno de fábricas, empresas, contratos de trabalho e estruturas produtivas relativamente identificáveis.
Hoje, parte crescente da atividade econômica ocorre por meio de plataformas digitais.
Motoristas, entregadores, prestadores de serviços, produtores de conteúdo e outros trabalhadores podem depender de sistemas controlados por algoritmos.
Esses sistemas interferem na distribuição de tarefas, nos pagamentos, nas avaliações e, em determinadas circunstâncias, na permanência do trabalhador na plataforma.
Isso cria novas questões sobre subordinação, autonomia, remuneração e proteção social.
Quem determina as condições de trabalho quando a organização das atividades depende de decisões automatizadas?
Quem responde por uma decisão algorítmica que prejudica um trabalhador?
Como garantir direitos quando o vínculo empregatício tradicional não corresponde exatamente às novas formas de prestação de serviços?
Em junho de 2026, a Organização Internacional do Trabalho adotou a Convenção 193, voltada ao trabalho decente na economia de plataformas.
O documento estabelece parâmetros internacionais sobre direitos fundamentais, segurança, remuneração, proteção de dados, transparência dos algoritmos e mecanismos de contestação de decisões automatizadas.
Sua aplicação nacional depende dos procedimentos jurídicos pertinentes, incluindo ratificação e implementação.
Essa mudança demonstra que os direitos trabalhistas também precisam ser reinterpretados diante da tecnologia.
A inteligência artificial acrescenta novos desafios.
A Organização Internacional do Trabalho identificou riscos associados ao monitoramento excessivo, à intensificação das atividades, à perda de autonomia e às condições psicossociais dos trabalhadores.
Portanto, a discussão não é apenas sobre máquinas substituírem pessoas.
É também sobre **quem controla a tecnologia, quem se beneficia de sua produtividade e quais mecanismos protegem a dignidade de quem trabalha.**
### 8. O capitalismo digital: quando dados e algoritmos se tornam instrumentos de poder
No capitalismo contemporâneo, os meios de produção não são apenas terras, fábricas, máquinas e instalações industriais.
Dados, plataformas digitais, infraestrutura de computação, modelos de inteligência artificial, patentes e redes de comunicação passaram a ocupar posição econômica estratégica.
Empresas de tecnologia podem exercer enorme influência sobre o comércio, a publicidade, os serviços e a circulação de informações.
Isso modifica a competição econômica e cria novos desafios regulatórios.
O controle de dados e de infraestrutura digital pode favorecer a concentração de mercado.
Ao mesmo tempo, novas tecnologias oferecem oportunidades de inovação, produtividade, acessibilidade e ampliação de serviços.
O desafio está em estabelecer regras que permitam inovação sem comprometer direitos, privacidade, concorrência e segurança.
Esse debate atravessa sistemas econômicos diferentes.
Países capitalistas procuram regular empresas de tecnologia.
Governos oficialmente socialistas também investem intensamente em inteligência artificial, plataformas e infraestrutura digital.
Portanto, a tecnologia não pertence exclusivamente a uma ideologia.
Seu impacto depende das instituições, das regras e das relações de poder presentes em cada sociedade.
### 9. A questão ambiental está obrigando os sistemas econômicos a reconsiderarem seus modelos de crescimento
Durante grande parte da industrialização mundial, o crescimento econômico esteve associado ao aumento da produção, do consumo de energia e da exploração de recursos naturais.
Atualmente, as consequências ambientais desse modelo impõem novos desafios.
Mudanças climáticas, degradação ambiental, perda de biodiversidade e riscos relacionados ao abastecimento de água e alimentos exigem adaptações.
Governos capitalistas vêm adotando políticas industriais voltadas à transição energética.
Organizações socialistas e movimentos ecossocialistas discutem formas de reorganizar a produção e o consumo a partir de critérios de sustentabilidade.
Cooperativas e iniciativas comunitárias desenvolvem experiências de economia solidária e circular.
No Brasil, o Plano Nacional de Economia Circular, aprovado em 2025, estabelece objetivos e ações para os próximos dez anos.
Na União Europeia, o *Clean Industrial Deal* busca conciliar produção industrial, competitividade e redução de emissões.
Não se trata de afirmar que todos esses projetos sejam equivalentes.
Existem divergências relevantes sobre financiamento, ritmo de transformação, propriedade dos recursos e distribuição dos custos.
Mas todos precisam enfrentar uma realidade material: o planeta possui limites ambientais.
A economia contemporânea não pode ser estudada ignorando a relação entre produção, natureza e condições de vida.
### 10. A democracia também está passando por transformações preocupantes
A análise dos sistemas econômicos não pode ser confundida com a análise dos regimes políticos.
Um país pode possuir uma economia capitalista e instituições democráticas.
Outro pode apresentar uma economia capitalista com restrições severas aos direitos políticos.
Da mesma forma, um Estado que se declara socialista pode manter um sistema de partido único ou adotar diferentes formas de representação.
Por isso, precisamos investigar as instituições efetivamente existentes.
A democracia depende de elementos como eleições competitivas, pluralismo, liberdade de expressão, proteção de direitos, independência judicial e limites ao exercício do poder.
Nos últimos anos, diferentes pesquisas identificaram sinais de deterioração democrática em várias regiões.
O relatório *Freedom in the World 2026*, da organização Freedom House, registrou que a liberdade global recuou pelo vigésimo ano consecutivo em 2025.
Segundo sua metodologia, 54 países apresentaram deterioração em direitos políticos ou liberdades civis naquele ano, enquanto 35 registraram melhorias.
Esses resultados são indicadores produzidos por uma instituição específica e devem ser interpretados segundo seus critérios.
Mas apontam para uma discussão internacional importante.
Movimentos políticos podem chegar ao governo por eleições e posteriormente promover mudanças que enfraqueçam o pluralismo ou a capacidade de fiscalização das instituições.
A ciência política costuma analisar esses processos por conceitos como erosão democrática, autocratização e concentração de poder.
Isso não significa que toda vitória eleitoral de um candidato conservador, socialista, liberal ou nacionalista represente autoritarismo.
A avaliação deve considerar atos concretos, alterações institucionais e impactos sobre direitos.
**A legitimidade de uma eleição e a qualidade democrática do exercício do poder são dimensões relacionadas, mas não idênticas.**
### 11. A geopolítica está reorganizando o capitalismo e as relações internacionais
Durante as últimas décadas do século XX, a globalização econômica estimulou a ampliação de cadeias produtivas internacionais.
Empresas distribuíram fábricas e fornecedores por diferentes países, buscando custos, mercados e oportunidades.
Esse processo gerou crescimento e integração econômica, mas também criou dependências estratégicas.
Conflitos internacionais, disputas comerciais e crises de abastecimento modificaram a maneira como muitos governos avaliam essas relações.
Em 2026, a Organização Mundial do Comércio identificou o crescimento de intervenções estatais, políticas industriais, restrições comerciais e disputas geopolíticas.
A preocupação com semicondutores, energia, minerais estratégicos, alimentos e tecnologias avançadas passou a influenciar decisões econômicas de governos com orientações políticas bastante diferentes.
Esse é um dos sinais mais importantes das readequações contemporâneas.
O Estado voltou a assumir papel estratégico em setores considerados essenciais para a segurança econômica.
Mas essa atuação não significa necessariamente socialismo.
Pode ser uma política de desenvolvimento capitalista, de segurança nacional ou de proteção industrial.
A História demonstra que governos frequentemente adaptam seus instrumentos econômicos quando percebem ameaças aos seus interesses estratégicos.
Isso está acontecendo novamente.
### 12. A proteção social está sendo rediscutida em todo o mundo
Outro aspecto fundamental das transformações atuais é a discussão sobre direitos sociais.
O Relatório sobre o Estado da Proteção Social de 2025, do Banco Mundial, estima que aproximadamente 2 bilhões de pessoas em países de renda baixa e média não possuem cobertura social adequada.
Isso demonstra que o desenvolvimento econômico, sozinho, não garante proteção universal.
Sistemas econômicos diferentes enfrentam desafios semelhantes: envelhecimento populacional, pobreza, desemprego, informalidade e mudanças nas relações de trabalho.
As respostas, entretanto, variam.
Alguns países ampliam transferências sociais.
Outros reformulam critérios de acesso a benefícios.
Alguns incentivam previdência complementar ou prolongamento da vida profissional.
Outros fortalecem serviços públicos e políticas de inclusão produtiva.
Essas escolhas produzem consequências distintas.
É necessário avaliar não apenas o equilíbrio das contas públicas, mas também a capacidade das políticas de garantir condições dignas de vida.
A proteção social não é monopólio de uma ideologia.
Sua existência e seu alcance resultam de processos históricos, decisões institucionais, condições econômicas e disputas sociais.
E aqui encontramos uma relação direta com a História brasileira.
Direitos trabalhistas, previdenciários e sociais foram construídos e modificados ao longo de gerações.
Muitos surgiram de mobilizações populares, negociações e conflitos políticos.
Nenhum deles deve ser tratado como se tivesse surgido espontaneamente.
### 13. O que essas mudanças realmente significam?
Ao observarmos o cenário mundial, percebemos que os sistemas econômicos estão se tornando mais complexos.
Países oficialmente socialistas utilizam mecanismos de mercado.
Países capitalistas ampliam políticas industriais e estratégicas.
Estados de bem-estar social reformulam benefícios e regras previdenciárias.
Governos favoráveis à liberalização econômica também precisam administrar custos sociais e estabelecer mecanismos de proteção.
Movimentos comunitários discutem alternativas de autogestão.
A inteligência artificial altera as relações entre trabalhadores, empresas e governos.
A crise ambiental impõe novos limites ao crescimento.
E as disputas geopolíticas modificam a organização da produção e do comércio internacional.
Não é correto afirmar que todas essas mudanças caminham para um único sistema universal.
Também não podemos concluir que as diferenças entre capitalismo e socialismo tenham desaparecido.
As questões relacionadas à propriedade, à distribuição da riqueza, ao controle dos meios de produção e ao poder político permanecem fundamentais.
O que está mudando são os instrumentos, as instituições, as estratégias e as combinações utilizadas para organizar as sociedades.
**As ideologias continuam existindo, mas a realidade histórica é mais complexa do que seus rótulos.**
### Considerações finais — A História não terminou, e os sistemas continuarão mudando
Como professora de História, considero especialmente importante compreender essas transformações sem reproduzir explicações simplificadas.
O mundo não está dividido em dois blocos perfeitamente opostos.
Não existe uma relação automática entre capitalismo e liberdade política.
Também não existe equivalência necessária entre socialismo e justiça social, nem entre intervenção estatal e autoritarismo.
Essas relações precisam ser demonstradas, não presumidas.
Para avaliar uma experiência política ou econômica, devemos perguntar:
Quem controla os recursos?
Quem participa das decisões?
Quais direitos são garantidos?
Quais liberdades são respeitadas?
Como a riqueza produzida é distribuída?
Quais são as condições concretas de trabalho, educação, saúde e envelhecimento?
Como o país trata suas populações historicamente marginalizadas?
E quais resultados suas instituições realmente produzem?
Essas perguntas são mais importantes do que simplesmente atribuir um nome ideológico a determinado governo.
A História mostra que nenhum sistema permaneceu exatamente igual à sua formulação inicial.
As sociedades mudam porque suas necessidades, seus conflitos, suas tecnologias e suas relações de poder também mudam.
O grande desafio contemporâneo é compreender quais transformações ampliam oportunidades, direitos, participação e bem-estar, e quais aprofundam desigualdades, concentração de poder ou restrições à liberdade.
Esses resultados precisam ser examinados com dados, documentos, conhecimento histórico e responsabilidade científica.
Não com slogans.
Não com medo de palavras.
Não com imagens idealizadas de governantes.
E muito menos com a repetição de conceitos que não foram devidamente compreendidos.
**Conhecer a História não significa decorar aquilo que aconteceu. Significa compreender os processos que produziram o presente e desenvolver instrumentos para analisar os caminhos possíveis do futuro.**
O capitalismo está mudando.
As experiências socialistas estão se readequando.
A proteção social está sendo reformulada.
As relações de trabalho estão sendo transformadas.
A democracia enfrenta novos desafios.
E a tecnologia está modificando profundamente as estruturas de poder.
Mas a pergunta histórica que permanece é:
**A serviço de quem essas transformações estão acontecendo — e quais serão suas consequências para a vida humana?**
Essa é a reflexão que precisamos continuar fazendo.
*Andrea Dias*
*Professora de História | Educadora | Psicanalista | Especialista em Neurodivergência*
**28 de outubro de 2026**
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### Referências documentais e bibliográficas
**FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL.** *World Economic Outlook: Resilience Under Strain, Urgent Choices*. Outubro de 2026.
https://www.imf.org/en/publications/weo/issues/2026/10/13/world-economic-outlook-october-2026
**ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO.** *World Trade Report 2026*. Setembro de 2026.
https://www.wto.org/english/res_e/publications_e/world-trade-report-2026_execsum_e.htm
**COMISSÃO EUROPEIA.** *Clean Industrial Deal*. Fevereiro de 2025.
https://commission.europa.eu/topics/competitiveness/clean-industrial-deal_en
**GOVERNO DA CHINA.** *China adopts law dedicated to promoting private sector*. Abril de 2025.
https://english.www.gov.cn/news/202504/30/content_WS6811c4e7c6d0868f4e8f2372.html
**GOVERNO DO VIETNÃ.** *Resolução nº 68-NQ/TW sobre o desenvolvimento da economia privada*. Maio de 2025.
https://baochinhphu.vn/toan-van-nghi-quyet-so-68-nq-tw-ve-phat-trien-kinh-te-tu-nhan-102250505122337909.htm
**REUTERS.** *Cuba rolls out more free-market reforms amid US pressure*. Setembro de 2026.
https://www.investing.com/news/economic-indicators/cuba-rolls-out-more-freemarket-reforms-amid-us-pressure-4888609
**OCDE.** *OECD Economic Surveys: Denmark 2026*. 2026.
https://www.oecd.org/en/publications/oecd-economic-surveys-denmark-2026_3d6cb4b8-en/
**FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL.** *Argentina: 2026 Article IV Consultation*. Maio de 2026.
https://www.imf.org/en/news/articles/2026/05/21/pr26165-argentina-imf-completes-2nd-rev-of-extended-arr-under-eff-concludes-2026-aiv-consultation
**ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO.** *International Labour Conference adopts Convention on Decent Work in the Platform Economy*. Junho de 2026.
https://www.ilo.org/resource/news/international-labour-conference-ends-adoption-first-convention-decent-work
**BANCO MUNDIAL.** *State of Social Protection Report 2025: The 2-Billion-Person Challenge*. 2025.
https://www.worldbank.org/en/topic/socialprotectionandjobs/publication/state-of-social-protection-2025-2-billion-person-challenge
**FREEDOM HOUSE.** *Freedom in the World 2026: The Growing Shadow of Autocracy*. Março de 2026.
https://freedomhouse.org/report/freedom-world/2026
**MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS.** *Plano Nacional de Economia Circular*. Brasil, 2025.
https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/enec/plano-nacional
**SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel.** *Brasil: Uma Biografia*. Companhia das Letras, 2015.
**HOBSBAWM, Eric.** *Era dos Extremos: o breve século XX — 1914–1991*. Companhia das Letras, 1995.
**PIKETTY, Thomas.** *O Capital no Século XXI*. Intrínseca, 2014.
**POLANYI, Karl.** *A Grande Transformação: as origens políticas e econômicas de nossa época*. 1944.
**MUDDE, Cas.** *The Far Right Today*. Polity Press, 2019.
**FREIRE, Paulo.** *Pedagogia do Oprimido*. Paz e Terra, 1970.
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QUANDO PENSAR DIFERENTE SE TRANSFORMA EM PERSEGUIÇÃO
Os extremismos, a intolerância e as marcas da violência na História da humanidade
Uma reflexão histórica, filosófica, social e humana sobre os limites entre a liberdade de pensamento e a violência contra o outro.
Por Andrea Dias — Professora de História, Educadora e Psicanalista
A humanidade possui uma longa história de conquistas, descobertas, transformações e avanços extraordinários. Entretanto, carrega também uma história dolorosa de perseguições, intolerância e violência praticadas contra pessoas que simplesmente eram, acreditavam, viviam ou pensavam de maneira diferente.
Ao longo dos séculos, povos foram perseguidos por suas origens, pessoas foram condenadas por suas crenças, mulheres foram acusadas de bruxaria, comunidades foram expulsas de seus territórios e milhões de seres humanos perderam a liberdade ou a própria vida porque alguém decidiu que determinadas diferenças não deveriam existir.
E talvez uma das perguntas mais importantes que a História nos permita fazer seja: em que momento uma convicção deixa de ser apenas uma forma de compreender o mundo e passa a ser utilizada para justificar a perseguição de outro ser humano?
Precisamos começar por uma distinção fundamental. Ter convicções religiosas, políticas, filosóficas ou culturais não constitui, por si só, extremismo. Defender ideias com firmeza também não significa necessariamente ser intolerante. Podemos acreditar profundamente em alguma coisa e, ainda assim, reconhecer que outras pessoas possuem o direito de fazer escolhas diferentes.
O problema começa quando a convicção se transforma em uma verdade que não admite questionamentos e, principalmente, quando passa a justificar a retirada da dignidade, da liberdade e dos direitos daqueles que não a compartilham.
A diferença deixa de ser compreendida como parte da diversidade humana e passa a ser apresentada como uma ameaça que precisa ser eliminada.
Jesus Cristo: a perseguição àquele que desafiou estruturas de poder
Uma das referências históricas e religiosas mais conhecidas da civilização ocidental é a trajetória de Jesus de Nazaré.
Jesus nasceu e viveu em um território submetido à dominação romana. Era judeu, convivia com as tradições religiosas de seu povo e desenvolveu ensinamentos que enfatizavam o amor ao próximo, a misericórdia, o cuidado com os pobres e a importância de não reduzir a dignidade humana à posição social.
Segundo os Evangelhos, suas palavras e atitudes provocaram conflitos com determinadas autoridades religiosas e políticas de seu tempo.
Historicamente, sua crucificação ocorreu sob a autoridade romana de Pôncio Pilatos. A crucificação era uma forma de execução utilizada pelo Império Romano, inclusive contra pessoas consideradas ameaças à ordem estabelecida.
É fundamental esclarecer que a responsabilidade por sua morte não pode ser atribuída coletivamente ao povo judeu, interpretação que, durante séculos, alimentou perseguições antissemitas. O próprio Jesus era judeu, assim como seus primeiros seguidores.
Sua trajetória nos convida a refletir sobre uma contradição que atravessou a História: quantas vezes pessoas foram perseguidas justamente por questionarem estruturas de poder e defenderem princípios que posteriormente seriam reconhecidos como importantes?
E quantas vezes o nome de alguém que ensinou o amor ao próximo acabou sendo utilizado, por outras pessoas, para justificar práticas incompatíveis com esse ensinamento?
Os primeiros cristãos: quando professar uma fé se tornava motivo de punição
Nos primeiros séculos da era cristã, seguidores de Jesus enfrentaram diferentes períodos de perseguição no Império Romano.
Durante o governo de Nero, após o grande incêndio de Roma, em 64 d.C., cristãos foram responsabilizados e submetidos a punições violentas.
Posteriormente, durante os governos de Décio e Diocleciano, ocorreram perseguições mais amplas, incluindo prisões, destruição de espaços religiosos e exigências de participação em rituais oficiais.
As perseguições não ocorreram de maneira uniforme durante todo o período romano, mas foram suficientemente graves para marcar profundamente a memória do cristianismo.
Em 313, o Édito de Milão estabeleceu uma política de tolerância religiosa que beneficiou os cristãos e outros grupos religiosos.
A História, entretanto, apresenta uma contradição importante.
Com o passar dos séculos, instituições cristãs adquiriram poder político, econômico e social. Em determinados contextos, setores dessas instituições também participaram de perseguições contra pessoas consideradas hereges, judeus, muçulmanos e integrantes de outras tradições religiosas.
Isso não significa que todos os cristãos tenham participado dessas práticas, tampouco diminui a atuação de religiosos que defenderam a paz, a liberdade e os direitos humanos.
Significa reconhecer que qualquer instituição humana, quando concentra poder e abandona a capacidade de reconhecer a dignidade do outro, pode produzir injustiças, mesmo quando afirma agir em nome de valores elevados.
A caça às bruxas: quando o medo se transforma em condenação
Entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, especialmente entre os séculos XV e XVIII, diferentes regiões europeias viveram períodos de intensa perseguição a pessoas acusadas de bruxaria.
Milhares foram submetidas a investigações, julgamentos, torturas e execuções.
As vítimas eram majoritariamente mulheres, embora homens também tenham sido acusados.
Muitas eram pessoas socialmente vulneráveis. Algumas viviam sozinhas, outras eram idosas, pobres ou tinham conflitos com seus vizinhos. Havia também pessoas acusadas por rivalidades familiares, disputas locais ou acontecimentos que a comunidade não conseguia explicar.
Doenças, epidemias, perdas de colheitas, mortes inesperadas e outros infortúnios podiam ser atribuídos à suposta ação de bruxas.
Em vários processos, acusações sem comprovação eram reforçadas por interrogatórios violentos e confissões obtidas mediante tortura.
O medo adquiria aparência de verdade.
A suspeita passava a justificar a punição.
E a punição, por sua vez, era apresentada como uma forma de proteger a comunidade.
Embora associemos frequentemente essas perseguições à Inquisição, os processos ocorreram em diferentes contextos católicos e protestantes, incluindo tribunais civis.
Essa distinção histórica é importante porque revela que a perseguição não pertencia exclusivamente a uma denominação religiosa.
Ela estava relacionada a relações de poder, crenças, tensões sociais e mecanismos de controle.
O que mais me impressiona nessa história é perceber como uma sociedade pode chegar ao ponto de aceitar o sofrimento de alguém apenas porque essa pessoa foi transformada em símbolo de um perigo coletivo.
Quando a suspeita substitui a prova e o medo substitui a razão, qualquer pessoa pode se transformar na próxima vítima.
A perseguição aos judeus: séculos de preconceito até o Holocausto
A perseguição às comunidades judaicas atravessou diferentes períodos históricos.
Durante a Idade Média europeia, pessoas judias foram submetidas a restrições econômicas, segregação, expulsões territoriais, ataques e acusações falsas.
Em diferentes momentos, foram responsabilizadas por epidemias, crises econômicas e problemas sociais que não haviam provocado.
Uma das acusações mais perversas, difundida durante séculos, atribuía coletivamente aos judeus a responsabilidade pela morte de Jesus.
Essa interpretação serviu para justificar violências e discriminações, embora não possuísse fundamento para responsabilizar um povo inteiro.
No século XX, o antissemitismo encontrou uma expressão particularmente devastadora no nazismo.
Em 1933, pouco depois da chegada de Adolf Hitler ao poder, o regime organizou um boicote nacional contra estabelecimentos pertencentes a pessoas judias.
Vitrines foram marcadas com a Estrela de Davi e inscrições discriminatórias. Integrantes das organizações nazistas intimidavam comerciantes e consumidores.
Posteriormente, leis retiraram direitos civis, limitaram atividades profissionais e ampliaram a exclusão social.
Em 1941, o regime tornou obrigatório, para grande parte das pessoas judias no território alemão, o uso da estrela amarela de identificação.
O processo de discriminação avançou para deportações, confinamento, trabalho forçado e assassinato em massa.
Durante o Holocausto, aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista e seus colaboradores.
Também foram perseguidos e mortos integrantes de outros grupos, incluindo pessoas com deficiência, populações roma e sinti, opositores políticos, testemunhas de Jeová e pessoas perseguidas por sua orientação sexual.
O genocídio não começou diretamente nas câmaras de gás.
Foi precedido por anos de propaganda, discriminação, retirada de direitos, normalização da violência e transformação de seres humanos em supostos inimigos da sociedade.
Essa sequência histórica precisa ser estudada com profundidade.
Não porque todos os episódios contemporâneos de preconceito conduzam inevitavelmente a um genocídio, mas porque a História demonstra como políticas de exclusão podem se intensificar quando não encontram resistência institucional e social.
Racismo, colonialismo e a desumanização dos povos
As perseguições raciais e étnicas também aparecem de maneira recorrente na História.
A colonização de diferentes territórios foi acompanhada de violência contra povos originários, apropriação de terras, imposição cultural e exploração econômica.
Milhões de africanos foram submetidos à escravização e ao tráfico transatlântico.
Para sustentar essas práticas, desenvolveram-se discursos que procuravam apresentar determinados grupos humanos como inferiores.
O racismo não foi apenas uma manifestação individual de antipatia.
Também foi organizado por instituições, normas, práticas econômicas e estruturas de poder.
No século XX, o regime de apartheid na África do Sul institucionalizou a segregação racial e a desigualdade de direitos.
Em Ruanda, em 1994, a propaganda extremista contribuiu para o genocídio contra a população tutsi. Em aproximadamente cem dias, centenas de milhares de pessoas foram assassinadas, incluindo também hutus moderados que se opuseram à violência.
Em diferentes contextos históricos, observamos um mecanismo semelhante: determinados grupos passam a ser descritos como perigosos, inferiores, impuros ou responsáveis pelos problemas coletivos.
A partir daí, a exclusão começa a parecer aceitável para aqueles que aderem a essa narrativa.
E quando a dignidade de um grupo é negada, a violência pode ser progressivamente normalizada.
A perseguição política: quando discordar se torna perigoso
A intolerância também pode assumir formas políticas.
Durante o século XX, regimes autoritários de diferentes orientações ideológicas perseguiram opositores, restringiram liberdades e utilizaram a violência para preservar o poder.
Na Alemanha nazista, socialistas, comunistas, sindicalistas e outros adversários foram perseguidos.
Na União Soviética de Stalin, expurgos políticos, prisões arbitrárias, deportações e execuções atingiram milhões de pessoas.
No Camboja, sob o regime do Khmer Vermelho, entre 1975 e 1979, políticas de perseguição e violência sistemática contribuíram para a morte de aproximadamente 1,5 a 2 milhões de pessoas.
Na América Latina, ditaduras militares perseguiram estudantes, professores, trabalhadores, lideranças políticas, jornalistas e defensores de direitos humanos.
O Brasil viveu essa experiência entre 1964 e 1985.
Pessoas foram presas, torturadas, assassinadas e desaparecidas em decorrência da repressão política.
A liberdade de pensamento e expressão foi submetida à censura e ao controle estatal.
Esses exemplos demonstram que o autoritarismo não deve ser avaliado apenas pelo nome de uma ideologia.
Deve ser reconhecido também pelas práticas: perseguição, censura, violência institucional, supressão de direitos e impedimento da participação política.
Nenhuma convicção autoriza a transformação de um adversário em alguém que perdeu o direito de existir, falar ou participar da sociedade.
O extremismo também aparece nas relações cotidianas
Nem toda intolerância começa nos grandes acontecimentos políticos.
Muitas vezes, ela aparece em situações aparentemente pequenas.
Na família que humilha alguém porque escolheu outra religião.
No grupo que exclui uma pessoa por sua origem.
No ambiente de trabalho onde alguém é perseguido por suas opiniões.
Na escola onde uma criança sofre violência por sua aparência, deficiência ou maneira de se comunicar.
Na comunidade que ridiculariza quem possui costumes diferentes.
Nas redes sociais, onde insultos e ameaças são tratados como entretenimento.
Também precisamos reconhecer a intolerância dirigida a pessoas com deficiência, pessoas neurodivergentes, mulheres, idosos, pessoas LGBTQIA+ e indivíduos que não correspondem às expectativas sociais dominantes.
Essas formas de discriminação não são idênticas entre si, mas compartilham a tentativa de reduzir a dignidade de alguém por uma característica pessoal ou coletiva.
Do ponto de vista psicológico, é importante compreender como crenças rígidas, medo, pertencimento grupal, necessidade de controle e sentimentos de ameaça podem contribuir para comportamentos intolerantes.
Isso não significa que toda pessoa com pensamento rígido seja extremista ou violenta.
Tampouco significa atribuir a violência a uma condição clínica ou à falta de inteligência.
A intolerância pode ser aprendida, incentivada, recompensada e reforçada socialmente.
Pessoas com elevada escolaridade também podem participar de movimentos extremistas.
O problema não é simplesmente desconhecer algo.
É também a recusa em reconhecer a humanidade do outro, especialmente quando essa recusa é reforçada por grupos, lideranças e instituições.
Quando uma opinião ultrapassa os limites da lei?
Esta é uma distinção indispensável.
No Brasil, as pessoas possuem liberdade de pensamento, consciência, crença, expressão e manifestação política, nos limites constitucionais.
Uma pessoa pode professar determinada religião e discordar das crenças de outra.
Pode defender uma ideologia política e criticar propostas de seus adversários.
Pode discordar de valores, interpretações históricas ou formas de organização social.
A divergência, por si só, não constitui crime.
Mas existem situações em que a conduta deixa de representar apenas uma opinião e passa a atingir direitos protegidos pela legislação.
A Lei nº 7.716/1989 estabelece crimes relacionados à discriminação e ao preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
A Lei nº 14.532/2023 ampliou a proteção penal contra a injúria racial e outras manifestações discriminatórias.
Ameaças, perseguição reiterada, lesões corporais e outras formas de violência também podem constituir crimes, conforme as circunstâncias e a legislação aplicável.
O incitamento à discriminação ou à violência pode ultrapassar os limites da liberdade de expressão.
Entretanto, nem toda fala ofensiva ou opinião radical é automaticamente criminosa. A caracterização jurídica depende da conduta, do contexto e dos requisitos previstos em lei.
Essa distinção é necessária para proteger simultaneamente a liberdade de expressão e a dignidade humana.
Liberdade de expressão não significa autorização irrestrita para ameaçar, perseguir, discriminar ou agredir.
O efeito psicológico da violência e da intolerância
Quando pensamos na violência, frequentemente lembramos primeiro das agressões físicas.
Mas existem outras formas de sofrimento.
A humilhação repetida.
A intimidação.
O isolamento.
A ameaça constante.
O medo de manifestar uma opinião.
A necessidade de esconder uma crença, uma característica pessoal ou uma parte importante da própria identidade.
A exposição prolongada a ambientes hostis pode contribuir para ansiedade, sofrimento emocional, hipervigilância, insegurança e dificuldades nas relações sociais.
Em situações graves, a perseguição pode produzir consequências traumáticas duradouras.
O sofrimento não se limita necessariamente à pessoa diretamente atingida.
Familiares também podem desenvolver medo, insegurança e comportamentos de proteção excessiva.
Comunidades inteiras podem passar a viver sob desconfiança.
A violência enfraquece vínculos.
Diminui a confiança nas instituições.
Reduz a participação coletiva.
E, quando naturalizada, ensina às novas gerações que determinadas pessoas merecem menos respeito do que outras.
Esse talvez seja um dos seus efeitos sociais mais perigosos.
A violência deixa de ser percebida como uma ruptura ética e passa a fazer parte da rotina.
O silêncio também merece reflexão
É necessário discutir o papel daqueles que presenciam práticas de perseguição e discriminação.
Nem sempre o silêncio significa concordância.
Uma pessoa pode permanecer calada por medo, insegurança, dependência econômica ou ausência de condições para intervir.
Não seria justo atribuir automaticamente responsabilidade moral idêntica a todos aqueles que não conseguem reagir.
Entretanto, quando instituições, lideranças e pessoas com condições reais de agir normalizam agressões ou se recusam deliberadamente a proteger direitos, contribuem para a manutenção de ambientes violentos.
A História demonstra a importância daqueles que ofereceram abrigo, denunciaram injustiças, produziram documentos, defenderam perseguidos e preservaram a memória das vítimas.
A resistência à intolerância não precisa assumir a forma de confronto físico.
Pode aparecer na educação.
Na proteção de uma vítima.
Na denúncia responsável.
Na recusa em compartilhar mentiras.
No acolhimento.
Na defesa do devido processo legal.
E no reconhecimento de que ninguém deve ser privado de direitos por pertencer a determinado grupo.
Não precisamos pensar igual para viver em sociedade
Uma sociedade plural não é aquela em que todos concordam.
É aquela em que as diferenças podem existir sem que se transformem automaticamente em ameaças.
Podemos defender crenças profundas.
Podemos discordar de governos.
Podemos criticar instituições religiosas.
Podemos discutir interpretações históricas.
Podemos questionar comportamentos e ideias.
Mas precisamos compreender que criticar uma ideia não equivale a negar a dignidade de quem a defende.
Também não podemos exigir tolerância diante da prática de violência ou da violação de direitos.
Respeitar pessoas não significa concordar com todas as suas atitudes.
Significa reconhecer limites éticos e jurídicos para a maneira como lidamos com nossas divergências.
A educação possui papel essencial nesse processo.
Conhecer a História das perseguições permite compreender como preconceitos se formaram, quais interesses foram mobilizados e quais consequências surgiram quando grupos passaram a ser tratados como inferiores.
Estudar diferentes culturas, religiões e tradições políticas não exige abandonar nossas próprias convicções.
Exige desenvolver instrumentos para compreender a realidade sem reduzir o outro a um estereótipo.
Considerações finais — O perigo começa quando esquecemos que o outro também é humano
Ao percorrer a História, encontramos diferentes formas de intolerância.
Jesus foi executado sob a autoridade romana.
Cristãos foram perseguidos em determinados períodos do Império Romano.
Judeus sofreram séculos de discriminação e, posteriormente, o genocídio nazista.
Mulheres foram acusadas de bruxaria e condenadas em processos marcados pelo medo e pela injustiça.
Povos originários sofreram violência, expulsões territoriais e tentativas de apagamento cultural.
Africanos foram escravizados e submetidos a sistemas brutais de exploração.
Opositores políticos foram presos, torturados e assassinados por regimes autoritários.
Comunidades inteiras foram destruídas por perseguições étnicas e religiosas.
As circunstâncias históricas, as responsabilidades e as dimensões desses acontecimentos são diferentes.
Não devemos tratá-los como episódios idênticos.
Mas podemos reconhecer um elemento recorrente: a tentativa de retirar de determinadas pessoas o direito de serem reconhecidas como plenamente humanas.
Antes da violência física, muitas vezes aparece a desqualificação.
Antes da exclusão institucional, a construção de estereótipos.
Antes da perseguição organizada, a divulgação de discursos que apresentam o outro como uma ameaça.
E quando uma sociedade passa a considerar aceitável o sofrimento de determinados grupos, sua própria humanidade está sendo colocada em risco.
Como professora de História, acredito que não basta ensinar datas, nomes e acontecimentos.
Precisamos compreender os mecanismos que permitiram que essas tragédias acontecessem.
Como educadora, acredito na importância do conhecimento, do pensamento crítico e da capacidade de reconhecer perspectivas diferentes.
Como psicanalista, reconheço a importância de refletirmos sobre nossos medos, nossas identificações, nossas formas de reagir às diferenças e os efeitos emocionais da violência.
E, acima de tudo, como ser humano, acredito que nenhuma fé, ideologia, origem, condição social ou convicção pessoal deve servir de justificativa para retirar a dignidade de alguém.
Não precisamos abandonar nossas convicções para respeitar outras pessoas.
Não precisamos concordar para conviver.
Não precisamos pensar igual para reconhecer direitos iguais.
A História já nos mostrou inúmeras vezes as consequências da perseguição e da intolerância.
Que sejamos capazes de aprender com ela.
Porque uma sociedade não se torna mais justa quando consegue silenciar quem pensa diferente.
Ela se torna mais justa quando consegue proteger a dignidade humana mesmo diante das divergências.
O verdadeiro perigo não está na existência das diferenças. Está no momento em que alguém passa a acreditar que tem o direito de perseguir, humilhar ou destruir o outro por causa delas.
E é justamente nesse momento que o conhecimento, a educação, a justiça e a responsabilidade coletiva se tornam ainda mais necessários.
Que nunca precisemos de uma nova tragédia para compreender o valor do respeito.
Que a memória das perseguições do passado nos ajude a impedir as violências do presente.
E que jamais confundamos a firmeza de uma convicção com o direito de ferir outro ser humano.
Andrea Dias
Professora de História | Educadora | Psicanalista | Especialista em Neurodivergência
Consultório NeuroAcolhe — Acolhimento, conhecimento e respeito à diversidade humana.
30 de outubro de 2026
Conteúdo histórico, educativo e reflexivo. Reprodução mediante autorização ou com atribuição expressa de autoria e fonte.
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QUANDO A CONVICÇÃO CEGA, A HUMANIDADE SANGRA
Do pensamento inflexível à perseguição: a história dos extremismos que transformaram diferenças em violência
Uma reflexão histórica, filosófica, psicológica e social sobre intolerância, poder, ignorância, fanatismo e os limites da liberdade humana.
Por Andrea Dias — Professora de História, Educadora e Psicanalista
Quando acreditar deixa de ser suficiente e surge a necessidade de destruir quem pensa diferente
Existe uma diferença imensa entre acreditar em alguma coisa e acreditar que todas as outras pessoas são obrigadas a pensar da mesma maneira.
Podemos ter convicções religiosas, políticas, filosóficas e culturais profundas. Podemos defender nossas ideias, questionar valores, discordar de governos, criticar comportamentos e até considerar determinadas concepções profundamente equivocadas.
Tudo isso faz parte da liberdade humana.
Entretanto, existe um momento em que a convicção pode deixar de ser uma referência pessoal e se transformar em instrumento de intolerância.
É quando a pessoa já não deseja compreender, argumentar ou conviver.
Deseja impor.
Já não procura conhecer o outro.
Procura desqualificá-lo.
Já não admite a possibilidade de estar equivocada.
Passa a considerar sua própria interpretação como a única verdade legítima.
E, quando essa postura se associa ao poder, ao medo, à propaganda e à desumanização, as consequências podem ultrapassar o campo das ideias e atingir a liberdade, a integridade e a própria existência de outras pessoas.
A História está repleta desses acontecimentos.
Civilizações foram conquistadas, tradições foram reprimidas, mulheres foram condenadas, comunidades religiosas foram perseguidas e povos inteiros foram submetidos à violência porque suas diferenças passaram a ser apresentadas como perigosas.
Mas precisamos compreender um aspecto fundamental: o extremismo não deve ser confundido simplesmente com ignorância ou falta de inteligência.
Pessoas com elevada escolaridade também participaram de perseguições históricas. Intelectuais, médicos, juristas, religiosos, administradores e governantes contribuíram para construir e legitimar sistemas violentos.
O problema é mais profundo.
Envolve relações de poder, interesses políticos, preconceitos aprendidos, processos de identificação coletiva, rigidez ideológica e a disposição de justificar o sofrimento alheio em nome de uma causa considerada superior.
Talvez uma das perguntas mais perturbadoras da História seja esta: como seres humanos conseguem acreditar que estão fazendo o bem enquanto participam da destruição da vida de outras pessoas?
1. Antes do cristianismo: os povos celtas e a repressão às tradições religiosas
Muito antes da expansão do cristianismo pela Europa, diferentes povos celtas ocupavam regiões que hoje correspondem, entre outras, a partes da França, das Ilhas Britânicas e da Europa Central.
É importante reconhecer que os celtas não constituíam um único Estado ou uma civilização politicamente uniforme. Eram diferentes comunidades, com línguas, tradições e organizações próprias.
Entre algumas dessas sociedades, os druidas exerciam funções religiosas, culturais e educativas.
Fontes greco-romanas, incluindo Júlio César e Tácito, registraram aspectos dessas tradições.
Mas precisamos considerar que grande parte dos relatos escritos preservados foi produzida por observadores externos, frequentemente pertencentes às próprias sociedades que conquistaram territórios celtas.
Isso exige cuidado histórico.
Durante a expansão romana, comunidades celtas enfrentaram guerras, subordinação política, destruição de estruturas locais e repressão a determinadas práticas religiosas.
Um episódio conhecido ocorreu na ilha de Mona, atual Anglesey, no País de Gales, por volta de 60 ou 61 d.C.
O governador romano Suetônio Paulino conduziu uma campanha militar contra grupos que incluíam druidas, considerados adversários importantes do domínio romano.
Segundo Tácito, houve destruição de locais sagrados e repressão violenta.
Não seria historicamente correto afirmar que todas as tradições celtas desapareceram naquele momento. Muitas práticas sobreviveram, foram transformadas ou se combinaram com outras influências culturais.
Também não devemos idealizar as sociedades celtas como inteiramente pacíficas ou livres de conflitos.
O que esse episódio demonstra é como a expansão territorial e a consolidação do poder podem atingir profundamente a liberdade cultural e religiosa de populações dominadas.
A repressão não aconteceu porque os romanos simplesmente desconheciam outras religiões. O Império Romano frequentemente incorporava divindades e práticas de diferentes povos.
A violência contra os druidas esteve relacionada também à resistência política e ao controle imperial.
Essa distinção é fundamental.
Nem toda perseguição religiosa nasce exclusivamente de divergências teológicas. Muitas vezes, a religião também se torna parte de disputas por território, autoridade e poder.
2. Jesus de Nazaré: a perseguição e as contradições da intolerância religiosa
Séculos depois, em uma região submetida ao domínio romano, viveu Jesus de Nazaré.
Historicamente, Jesus era judeu e desenvolveu sua atuação no contexto religioso e político da Judeia e da Galileia do século I.
Seus ensinamentos, preservados principalmente nos Evangelhos, enfatizavam a misericórdia, o cuidado com pessoas vulneráveis, o amor ao próximo e a importância da transformação interior.
Segundo as narrativas cristãs, suas atitudes provocaram tensões com determinadas autoridades religiosas e políticas.
Jesus foi crucificado sob o governo romano de Pôncio Pilatos.
A crucificação era uma pena utilizada pelo poder romano, inclusive contra pessoas consideradas ameaças à ordem estabelecida.
É indispensável esclarecer que sua morte não pode ser atribuída coletivamente ao povo judeu.
Essa interpretação, utilizada durante séculos para alimentar o antissemitismo, constitui uma generalização histórica e moralmente injustificável.
O próprio Jesus era judeu.
Seus primeiros seguidores também eram judeus.
E aqui encontramos uma contradição que merece reflexão.
Como uma mensagem religiosa centrada no amor ao próximo pôde, em determinados contextos posteriores, ser invocada para justificar violência contra pessoas de outras crenças?
A resposta não está em reduzir toda uma religião às práticas de determinados grupos.
Está em compreender como ensinamentos religiosos podem ser reinterpretados, apropriados e utilizados por instituições e lideranças em diferentes circunstâncias históricas.
Uma crença que ensina a amar o próximo perde sua coerência ética quando passa a ser utilizada para justificar a desumanização desse mesmo próximo.
3. Os primeiros cristãos: quando a fé se torna motivo de perseguição
Nos primeiros séculos da era cristã, diferentes comunidades de seguidores de Jesus enfrentaram perseguições no Império Romano.
Durante o governo de Nero, após o incêndio de Roma, em 64 d.C., cristãos foram responsabilizados e submetidos a punições violentas.
Em períodos posteriores, especialmente sob os imperadores Décio e Diocleciano, ocorreram campanhas de repressão religiosa.
A recusa de alguns cristãos em participar dos cultos oficiais romanos poderia ser interpretada como desobediência à autoridade imperial.
É importante lembrar que as perseguições não foram contínuas nem uniformes em todo o Império.
Em 313, o acordo conhecido como Édito de Milão representou uma mudança importante na política de tolerância religiosa.
No final do século IV, o cristianismo niceno adquiriu posição privilegiada e oficial no Império.
Com o passar dos séculos, instituições cristãs passaram a exercer também significativo poder político.
E determinados grupos que antes pertenciam a uma tradição perseguida passaram, em alguns contextos, a participar da perseguição de outras pessoas.
Isso nos ensina uma lição histórica difícil, mas indispensável:
Ter sofrido perseguição não impede automaticamente que uma comunidade, quando conquista poder, reproduza práticas persecutórias contra outros grupos.
A memória do sofrimento precisa ser acompanhada pela responsabilidade de não repetir a violência.
4. As Cruzadas e a instrumentalização da fé
Entre os séculos XI e XIII, diferentes campanhas militares conhecidas como Cruzadas mobilizaram interesses religiosos, políticos, territoriais e econômicos.
A Primeira Cruzada foi convocada em 1095 pelo papa Urbano II e resultou, em 1099, na conquista de Jerusalém.
A tomada da cidade foi acompanhada por massacres.
Durante outras campanhas, comunidades cristãs orientais, judaicas e muçulmanas também sofreram violência.
A Quarta Cruzada, em 1204, culminou no saque de Constantinopla, uma cidade cristã, demonstrando como interesses políticos e econômicos podiam se sobrepor às justificativas religiosas originais.
Entretanto, as relações entre sociedades cristãs, judaicas e muçulmanas na Idade Média não foram constituídas apenas por guerras.
Também existiram comércio, produção intelectual, tradução de obras, intercâmbios científicos e períodos de convivência.
É justamente essa complexidade que precisamos preservar.
Não existiu uma única postura de todos os cristãos, de todos os muçulmanos ou de todos os judeus.
Existiram diferentes sociedades, governos, lideranças e experiências.
O problema aparece quando a identidade religiosa é transformada em instrumento de mobilização para justificar violência coletiva.
Quando isso acontece, a fé deixa de funcionar apenas como experiência espiritual e passa a ser utilizada como linguagem de legitimação do poder.
5. A caça às bruxas: quando a suspeita se transforma em sentença
Entre os séculos XV e XVIII, diferentes regiões europeias foram marcadas por perseguições a pessoas acusadas de bruxaria.
As estimativas historiográficas mais aceitas apontam aproximadamente 40 mil a 60 mil execuções ao longo do principal período dessas perseguições, embora os números permaneçam sujeitos a debates e diferenças documentais.
A maioria das pessoas executadas era formada por mulheres, mas também houve homens acusados e condenados.
Não podemos explicar esses acontecimentos por uma única causa.
Crenças religiosas, conflitos comunitários, disputas familiares, crises econômicas, problemas agrícolas, epidemias e relações de poder contribuíram para a formação das acusações.
Em determinadas regiões, pessoas idosas, pobres ou socialmente isoladas ficavam particularmente vulneráveis.
Uma morte inesperada poderia ser atribuída à ação de uma suposta bruxa.
A perda de uma colheita poderia transformar uma vizinha em suspeita.
Um conflito entre famílias poderia alimentar uma acusação.
E a acusação, uma vez aceita, poderia desencadear interrogatórios, torturas e condenações.
Essas perseguições aconteceram em diferentes sociedades católicas e protestantes, por meio de tribunais religiosos e civis.
É incorreto atribuir todas as execuções exclusivamente à Inquisição.
O que considero particularmente perturbador é a maneira como a suspeita adquiria aparência de certeza.
Não era necessário demonstrar que alguém havia causado determinado sofrimento.
Bastava construir uma narrativa suficientemente convincente para a comunidade ou para as autoridades.
E, quando a população começava a acreditar que determinadas pessoas representavam um perigo, a violência podia ser apresentada como uma forma de proteção coletiva.
A História da caça às bruxas revela como o medo, quando associado à autoridade e à ausência de garantias jurídicas, pode destruir vidas.
Uma sociedade que substitui provas por suspeitas e justiça por medo abre espaço para que qualquer pessoa seja transformada em inimiga.
6. Judeus, perseguições seculares e o Holocausto
A perseguição às comunidades judaicas atravessou diferentes períodos da História.
Na Europa medieval, judeus foram submetidos a expulsões, restrições profissionais, confinamento em determinados espaços e episódios de violência coletiva.
Durante epidemias, como a Peste Negra, foram falsamente responsabilizados pela propagação de doenças.
Acusações religiosas e econômicas contribuíram para alimentar o antissemitismo.
No século XX, o regime nazista transformou esse preconceito em política estatal sistemática.
Em 1º de abril de 1933, o governo nazista organizou um boicote contra estabelecimentos comerciais e profissionais judeus.
Vitrines foram marcadas com inscrições discriminatórias e símbolos religiosos utilizados como instrumentos de identificação e intimidação.
As Leis de Nuremberg, de 1935, retiraram direitos de cidadania e institucionalizaram a discriminação racial.
A perseguição se intensificou.
Em 1941, o regime tornou obrigatória, para grande parte da população judaica submetida às normas alemãs, a utilização da estrela amarela de identificação.
Houve deportações, confinamento em guetos, trabalho forçado e assassinatos sistemáticos.
Durante o Holocausto, aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista e seus colaboradores.
O nazismo também perseguiu pessoas roma e sinti, pessoas com deficiência, opositores políticos, testemunhas de Jeová e outros grupos.
A história do Holocausto demonstra como a desumanização pode ser construída gradualmente.
Primeiro, disseminam-se estereótipos.
Depois, diferenças são transformadas em ameaças.
Direitos são restringidos.
A discriminação torna-se institucional.
A violência é normalizada.
E, em condições históricas específicas, a perseguição pode alcançar dimensões genocidas.
Não devemos transformar essa sequência em uma fórmula que explique automaticamente qualquer conflito atual.
Mas precisamos conhecer seus mecanismos para identificar riscos reais e defender os direitos humanos.
7. A colonização e a violência contra povos originários
A expansão colonial europeia provocou profundas transformações nas Américas, na África, na Ásia e em outras regiões.
Diferentes povos originários foram submetidos a conquistas militares, deslocamentos forçados, destruição de territórios, imposição de práticas culturais e exploração econômica.
Em muitos casos, autoridades coloniais procuraram substituir sistemas tradicionais de organização social e religiosa.
No Brasil, a colonização portuguesa esteve acompanhada de violência contra povos originários e da escravização de africanos e seus descendentes.
Durante séculos, discursos políticos, econômicos e até religiosos foram utilizados para justificar a exploração.
A ideia de que determinados povos seriam inferiores ou necessitariam ser civilizados funcionou como instrumento de legitimação da dominação.
Entretanto, os povos originários e as populações africanas escravizadas não foram apenas vítimas passivas.
Houve resistência, preservação cultural, revoltas, quilombos, organizações coletivas e múltiplas estratégias de sobrevivência.
Essa História precisa ser contada sem apagar a agência e o protagonismo das populações perseguidas.
Também precisamos reconhecer que a violência colonial não se limitou ao passado distante.
Seus efeitos permanecem perceptíveis em desigualdades territoriais, conflitos fundiários, discriminação e disputas por reconhecimento cultural.
Quando um grupo humano passa a considerar sua própria cultura superior a todas as demais, pode encontrar justificativas para transformar a diferença em dominação.
8. As religiões de matriz africana e a intolerância brasileira
No Brasil, a perseguição religiosa também atingiu profundamente tradições de matriz africana.
Durante a escravização e posteriormente, diferentes práticas culturais e religiosas africanas foram reprimidas, criminalizadas ou desvalorizadas.
O Candomblé, a Umbanda e outras tradições enfrentaram estigmatização e, em diferentes períodos, intervenções policiais e restrições à liberdade de culto.
Até hoje, episódios de violência contra terreiros e praticantes dessas religiões são registrados.
A intolerância pode aparecer na destruição de objetos sagrados, em ameaças, ataques a espaços religiosos ou humilhações dirigidas a seus integrantes.
Precisamos distinguir o direito de discordar de uma crença do ato de agredir alguém por praticá-la.
Uma pessoa pode seguir sua religião e não compartilhar os ensinamentos de outra.
Isso faz parte da liberdade de consciência.
Mas essa liberdade não autoriza impedir o culto alheio, ameaçar praticantes ou destruir espaços religiosos.
No Brasil, a legislação reconhece e protege a liberdade religiosa e estabelece sanções para diferentes condutas discriminatórias.
O respeito à diversidade religiosa não exige que todos professem as mesmas crenças.
Exige que todos tenham seus direitos preservados.
9. O extremismo religioso não pertence a uma única tradição
Uma abordagem histórica responsável não pode apresentar a intolerância como característica exclusiva de determinada religião.
Ao longo dos séculos, diferentes sociedades viveram perseguições promovidas por grupos que utilizavam justificativas religiosas.
No Irã contemporâneo, integrantes da comunidade bahá'í enfrentam perseguições documentadas por organizações de direitos humanos, incluindo restrições educacionais, econômicas e religiosas.
Em 2014, integrantes do autodenominado Estado Islâmico iniciaram uma campanha de violência contra a comunidade yazidi, especialmente na região de Sinjar, no Iraque.
Investigações das Nações Unidas identificaram evidências de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
Milhares de pessoas foram assassinadas, deslocadas ou submetidas a diferentes formas de violência, incluindo escravização sexual.
A organização extremista também perseguiu cristãos, muçulmanos de diferentes tradições e outros grupos.
Esses crimes não podem ser atribuídos coletivamente à população muçulmana.
Da mesma forma, violências historicamente praticadas por determinadas autoridades cristãs não justificam responsabilizar todos os cristãos.
Precisamos distinguir pessoas, instituições, governos e movimentos extremistas.
A generalização também é uma forma de preconceito.
E combater uma perseguição por meio da perseguição a outro grupo apenas reproduz o mecanismo que deveríamos enfrentar.
10. A perseguição política e a transformação do adversário em inimigo
Os extremismos políticos também deixaram marcas profundas na História.
O nazismo e o fascismo estabeleceram regimes autoritários que perseguiram opositores e restringiram direitos.
Na União Soviética de Stalin, expurgos políticos, deportações, prisões e execuções atingiram milhões de pessoas.
No Camboja, o Khmer Vermelho promoveu políticas de violência extrema entre 1975 e 1979.
Na América Latina, diferentes ditaduras perseguiram estudantes, professores, trabalhadores, jornalistas e lideranças políticas.
No Brasil, o regime militar instaurado em 1964 utilizou censura, repressão, tortura e outras graves violações de direitos humanos.
O autoritarismo não pode ser compreendido apenas pela identificação ideológica declarada pelos governantes.
Precisamos examinar suas práticas.
A perseguição de adversários.
A supressão do pluralismo.
A utilização da violência política.
O controle da informação.
A concentração do poder.
A transformação de críticas em supostas ameaças ao Estado.
A História demonstra que a democracia exige mais do que eleições.
Exige limites ao poder, instituições responsáveis, garantias jurídicas e proteção das liberdades fundamentais.
11. Perseguições étnicas: quando a identidade se transforma em condenação
A violência contra grupos étnicos também marcou diferentes sociedades.
No genocídio armênio, durante o Império Otomano, em 1915 e nos anos seguintes, deportações e massacres provocaram a morte de grande número de armênios.
No século XX, o apartheid sul-africano institucionalizou a segregação racial e restringiu direitos da população negra.
Em Ruanda, no ano de 1994, a propaganda extremista e a mobilização de milícias contribuíram para o genocídio contra os tutsis.
Também foram assassinados hutus que se opunham à violência.
A classificação de pessoas por sua origem passou a determinar quem poderia viver em segurança e quem seria considerado um inimigo.
Esses acontecimentos possuem contextos históricos próprios e não devem ser tratados como episódios idênticos.
Entretanto, revelam como identidades coletivas podem ser manipuladas para legitimar exclusão, perseguição e assassinatos.
A diferença étnica, por si só, não produz violência.
A violência surge de processos políticos, institucionais e sociais que transformam essa diferença em instrumento de dominação.
12. Mulheres, ciência e pensamento independente: outras formas de perseguição
Ao longo da História, mulheres enfrentaram restrições educacionais, jurídicas, econômicas e políticas.
Em diferentes sociedades, foram impedidas de participar de instituições de ensino, exercer determinadas profissões ou administrar seus próprios bens.
A perseguição por motivos de gênero não se limitou aos julgamentos de bruxaria.
Ela também apareceu em normas e práticas que restringiam a autonomia feminina.
Do mesmo modo, pesquisadores, filósofos e intelectuais enfrentaram censura e punições em diferentes períodos.
Galileu Galilei, por exemplo, foi julgado pela Inquisição romana em 1633 em razão da defesa do heliocentrismo e das controvérsias científicas e teológicas de seu tempo.
Sua experiência não deve ser simplificada como uma guerra eterna entre ciência e religião.
As relações históricas entre conhecimento científico e instituições religiosas foram muito mais complexas.
Mas o episódio demonstra os riscos existentes quando autoridades procuram impor limites coercitivos à investigação intelectual.
O conhecimento se desenvolve por meio de observações, hipóteses, questionamentos, debates e revisão de conclusões.
Uma sociedade que proíbe perguntas enfraquece sua capacidade de aprender.
13. A intolerância contra pessoas com deficiência, neurodivergentes e outras minorias
Também precisamos reconhecer perseguições dirigidas a pessoas consideradas diferentes por suas características físicas, cognitivas ou comportamentais.
O regime nazista promoveu políticas de esterilização compulsória e assassinato de pessoas com deficiência.
O programa de extermínio conhecido como Aktion T4 resultou no assassinato de milhares de pessoas, sob justificativas eugênicas e de suposta inadequação social.
Essas práticas demonstram como conceitos falsamente apresentados como científicos podem ser utilizados para legitimar a violência.
A eugenia procurou classificar seres humanos segundo critérios de suposto valor biológico ou social.
Suas aplicações coercitivas produziram graves violações de direitos.
Atualmente, pessoas com deficiência e neurodivergentes ainda podem enfrentar discriminação, infantilização, exclusão educacional, barreiras profissionais e violência.
É necessário compreender que características neurológicas, cognitivas ou funcionais não retiram a dignidade humana.
A diversidade não pode ser transformada em motivo para negar direitos.
E aqui também precisamos diferenciar condições individuais de atitudes persecutórias.
Rigidez cognitiva, por exemplo, não significa necessariamente intolerância moral.
Pessoas neurodivergentes não devem ser associadas automaticamente ao extremismo.
A violência e a discriminação resultam de processos que exigem análise própria, sem explicações estigmatizantes.
14. O que a Psicologia pode explicar sobre a adesão ao extremismo?
Do ponto de vista psicológico, o extremismo envolve fenômenos complexos.
Entre eles podem estar a identificação intensa com um grupo, a percepção de ameaça, a necessidade de pertencimento, a hostilidade ao grupo considerado adversário e a aceitação de justificativas para comportamentos prejudiciais.
A Psicologia Social estuda há décadas os mecanismos pelos quais indivíduos modificam suas atitudes e comportamentos em contextos coletivos.
A teoria da identidade social, desenvolvida por Henri Tajfel e John Turner, ajuda a compreender como as pessoas constroem parte de sua identidade a partir dos grupos aos quais pertencem.
A pesquisa de Albert Bandura sobre desengajamento moral demonstra como indivíduos podem desenvolver justificativas que reduzem o reconhecimento da gravidade de suas próprias condutas.
A obra de Hannah Arendt também contribui para refletir sobre responsabilidade individual, burocracia, autoridade e normalização de práticas violentas.
Essas contribuições não significam que todos os extremistas possuam uma mesma personalidade ou condição psicológica.
Também não permitem afirmar que a intolerância seja necessariamente resultado de baixo nível intelectual.
Pessoas podem possuir conhecimento técnico e, ainda assim, utilizar sua inteligência para justificar preconceitos.
Podem ser competentes profissionalmente e apresentar profundo comprometimento com ideias desumanizadoras.
Por isso, considero mais adequado falar em empobrecimento da reflexão crítica, fechamento ao diálogo e desengajamento moral, conforme cada situação, do que simplesmente associar extremismo à falta de inteligência.
O problema não é apenas não saber.
É também aquilo que uma pessoa decide fazer com o conhecimento que possui, com as influências que recebe e com o poder que exerce sobre os outros.
15. As redes sociais e a transformação da hostilidade em espetáculo
A intolerância contemporânea encontrou novos instrumentos de circulação.
Mensagens, vídeos, fotografias e discursos podem alcançar milhões de pessoas em poucos instantes.
As redes sociais também possibilitam educação, organização coletiva e denúncias importantes.
Entretanto, determinados ambientes digitais favorecem a circulação de conteúdos destinados a provocar medo, indignação e hostilidade.
Quando pessoas são constantemente expostas a mensagens que apresentam determinados grupos como ameaças, podem passar a interpretar acontecimentos cotidianos por meio dessas narrativas.
A repetição não transforma uma mentira em verdade.
Mas pode produzir familiaridade e reduzir a disposição de questioná-la.
A difusão de desinformação, teorias conspiratórias e ataques pessoais pode contribuir para ambientes de polarização intensa.
Nesses espaços, humilhar alguém pode gerar aprovação do grupo.
A agressividade pode ser confundida com coragem.
A recusa ao diálogo pode ser apresentada como fidelidade.
E a complexidade das questões sociais acaba sendo substituída por explicações simples, que oferecem culpados facilmente identificáveis.
Precisamos ensinar as pessoas a reconhecer esse mecanismo.
Não apenas para evitar a disseminação de informações falsas.
Mas para proteger a capacidade de pensar de maneira independente.
16. Quando o extremismo deixa de ser uma opinião e passa a configurar crime?
Essa distinção é fundamental.
No Brasil, a Constituição Federal garante a liberdade de pensamento, consciência, crença e manifestação, observados os limites constitucionais.
Discordar de uma religião não é, por si só, crime.
Criticar um governo não é crime.
Defender uma corrente política, inclusive uma posição considerada radical, não constitui automaticamente crime.
Questionar ideias e instituições faz parte de uma sociedade democrática.
Entretanto, determinadas condutas podem ultrapassar o campo da opinião e configurar ilícitos.
A Lei nº 7.716/1989 estabelece crimes relacionados à discriminação e ao preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
A Lei nº 14.532/2023 ampliou a proteção penal relacionada à injúria racial e a diferentes práticas discriminatórias.
O Código Penal também prevê crimes como ameaça, perseguição reiterada e lesão corporal.
A prática, o induzimento ou a incitação à discriminação e ao preconceito podem configurar crimes quando preenchidos os requisitos legais.
A legislação brasileira também pune determinadas formas de divulgação do nazismo por meio da utilização de símbolos para essa finalidade.
Mas é necessário evitar generalizações.
Nem toda opinião ofensiva corresponde automaticamente a um crime.
Nem todo conflito interpessoal é perseguição penalmente caracterizada.
Nem todo posicionamento político radical representa ameaça ilícita.
A avaliação jurídica depende do conteúdo, da conduta, do contexto e das condições previstas na legislação.
O princípio é simples, embora sua aplicação exija rigor:
As pessoas possuem o direito de discordar. Não possuem um direito ilimitado de ameaçar, perseguir, discriminar ou agredir.
17. A violência que não deixa marcas visíveis
Quando pensamos em perseguição, costumamos imaginar agressões físicas, prisões e mortes.
Mas a violência também pode aparecer de maneira menos evidente.
Na humilhação repetida.
Na exclusão deliberada.
Na intimidação.
Na propagação de mentiras para destruir a reputação de alguém.
Na desqualificação constante.
Na ameaça de retirar oportunidades.
No uso da posição de autoridade para impor medo e submissão.
Essas situações podem acontecer em ambientes familiares, religiosos, profissionais, escolares e comunitários.
Não significa que toda discordância ou conflito represente violência psicológica.
Precisamos examinar a frequência, o contexto, a gravidade e as consequências dos comportamentos.
Entretanto, experiências persistentes de hostilidade podem produzir sofrimento emocional significativo.
Ansiedade, insegurança, isolamento, hipervigilância e dificuldades de confiança podem aparecer em pessoas submetidas a perseguições.
E a violência não atinge apenas a vítima direta.
Também pode comprometer famílias, comunidades e instituições.
Quando as pessoas começam a temer manifestar opiniões, participar de atividades coletivas ou exercer seus direitos, toda a sociedade perde.
18. O silêncio diante da perseguição: medo, omissão e responsabilidade
A História também nos obriga a perguntar sobre o papel daqueles que presenciam injustiças.
Durante perseguições religiosas, guerras, ditaduras e genocídios, existiram pessoas que participaram diretamente da violência.
Mas também existiram aquelas que se beneficiaram da exclusão, colaboraram com autoridades ou permaneceram indiferentes.
É importante reconhecer que o silêncio nem sempre significa concordância.
Muitas pessoas se calam por medo, dependência econômica, ameaça ou ausência de condições para agir.
Não podemos exigir heroísmo de todas as vítimas ou testemunhas.
Entretanto, instituições e autoridades que possuem meios efetivos de proteger direitos assumem responsabilidades particulares quando ignoram violações.
A resistência também pode acontecer de maneiras diferentes.
Na proteção de pessoas perseguidas.
Na preservação de documentos.
Na educação.
Na denúncia responsável.
Na produção científica.
No acolhimento.
Na recusa em compartilhar informações falsas.
Na defesa de garantias jurídicas.
E na disposição de reconhecer que o sofrimento de alguém não se torna aceitável apenas porque essa pessoa pertence a um grupo diferente.
19. O que precisamos aprender com tantas civilizações e perseguições?
Ao percorrer a História dos povos celtas, do Império Romano, das comunidades cristãs, das sociedades medievais, da colonização, das perseguições religiosas e dos regimes autoritários modernos, encontramos acontecimentos muito diferentes.
Não podemos tratá-los como se fossem equivalentes em suas causas, dimensões ou consequências.
Cada experiência precisa ser compreendida dentro de seu contexto histórico.
Entretanto, algumas perguntas aparecem repetidamente.
Quem possui o poder de definir o que é considerado aceitável?
Quem decide quais grupos pertencem plenamente à sociedade?
Quem é apresentado como ameaça?
Quais interesses são protegidos quando determinadas pessoas são excluídas?
Que discursos são utilizados para justificar a violência?
E quais instituições deveriam proteger aqueles que estão sendo perseguidos?
Essas perguntas não pertencem apenas ao passado.
Elas continuam necessárias no mundo contemporâneo.
Porque uma sociedade pode desenvolver tecnologias extraordinárias e ainda reproduzir preconceitos antigos.
Pode ampliar o acesso à educação e continuar disseminando desinformação.
Pode defender publicamente a paz enquanto tolera práticas de humilhação.
Pode celebrar a liberdade e, ao mesmo tempo, desejar restringi-la quando alguém pensa diferente.
Esse é um dos grandes paradoxos da experiência humana.
20. A diferença não é uma ameaça à existência do outro
Uma sociedade plural não exige que todas as pessoas abandonem suas convicções.
Podemos ser religiosos, agnósticos ou ateus.
Podemos defender diferentes correntes políticas.
Podemos participar de culturas distintas.
Podemos possuir valores, experiências e perspectivas diferentes.
O respeito não exige concordância.
Exige reconhecer que nenhuma pessoa perde sua dignidade por não compartilhar nossas ideias.
Também precisamos compreender que tolerância não significa aceitar violência ou discriminação.
Uma sociedade democrática pode e deve estabelecer limites jurídicos para proteger direitos.
A liberdade de pensamento não elimina a responsabilidade pelos atos.
A fé não elimina a responsabilidade ética.
A convicção política não elimina a responsabilidade civil.
E nenhuma identidade coletiva deveria ser utilizada como autorização para perseguir pessoas.
O verdadeiro amadurecimento humano não está em conseguir impor nossas certezas, mas em reconhecer que nossa existência não depende da destruição das diferenças.
Considerações finais — Quando a convicção cega, a humanidade sangra
Ao longo da História, vimos povos submetidos pela conquista, tradições religiosas reprimidas, mulheres condenadas por acusações infundadas, comunidades judaicas perseguidas, pessoas escravizadas, grupos étnicos transformados em inimigos e adversários políticos submetidos à violência.
Vimos também pessoas que resistiram.
Que protegeram perseguidos.
Que preservaram conhecimentos.
Que ensinaram.
Que denunciaram crimes.
Que reconstruíram comunidades.
Que defenderam direitos mesmo quando isso representava riscos pessoais.
Essa parte da História também precisa ser lembrada.
Porque a humanidade não é constituída apenas pelos episódios de violência que produziu.
É também formada pelas iniciativas de resistência, solidariedade e reconstrução.
Como professora de História, considero que nosso compromisso não pode ser apenas apresentar acontecimentos.
Precisamos compreender os processos que permitiram que acontecessem.
Como educadora, acredito que o conhecimento histórico precisa ampliar a autonomia intelectual e a capacidade de questionamento.
Como psicanalista, considero importante refletirmos sobre nossas próprias convicções, nossos medos, nossas identificações e os limites da nossa capacidade de conviver com diferenças.
Não precisamos transformar todas as divergências em conflitos.
Não precisamos transformar todas as críticas em ofensas pessoais.
E não precisamos transformar nossas crenças em instrumentos de poder sobre a vida de outras pessoas.
Há uma diferença enorme entre defender uma ideia e desejar eliminar quem não concorda com ela.
Há uma distância imensa entre professar uma fé e perseguir alguém por possuir outra.
Há uma diferença fundamental entre criticar um comportamento e retirar a dignidade de uma pessoa.
O perigo começa quando essas diferenças desaparecem.
Quando o sofrimento alheio passa a ser celebrado.
Quando a humilhação vira entretenimento.
Quando a violência é apresentada como virtude.
Quando o diálogo é substituído pela ameaça.
Quando alguém passa a acreditar que sua própria certeza vale mais do que a vida, a liberdade e os direitos do outro.
Não é preciso pensar igual para viver em paz.
Não é preciso acreditar nas mesmas coisas para respeitar a dignidade humana.
E não é necessário abandonar nossas convicções para reconhecer que outras pessoas também possuem direitos.
A História já demonstrou, inúmeras vezes, as consequências de transformar diferenças em perseguição.
Que não precisemos de novas tragédias para compreender aquilo que tantas gerações aprenderam por meio do sofrimento.
Que tenhamos conhecimento suficiente para reconhecer a manipulação.
Sensibilidade para perceber o sofrimento.
Responsabilidade para não reproduzir preconceitos.
E coragem para questionar nossas próprias certezas quando elas começarem a justificar a desumanização de alguém.
Porque a convicção que não aceita perguntas pode se transformar em fanatismo.
O fanatismo que encontra poder pode se transformar em perseguição.
E a perseguição que encontra uma sociedade indiferente pode produzir tragédias que jamais deveriam se repetir.
A humanidade não precisa de pessoas que pensem todas da mesma maneira. Precisa de pessoas capazes de pensar sem desumanizar.
Andrea Dias
Professora de História | Educadora | Psicanalista | Especialista em Neurodivergência
Consultório NeuroAcolhe — Acolhimento, conhecimento e respeito à diversidade humana.
Referências para acompanhar a publicação
Para sustentar especialmente os novos capítulos, selecionei fontes históricas e documentais que podem acompanhar o artigo.
Assunto Referência
Povos celtas, druidas e conquista romana English Heritage — Religião na Britânia romana
English Heritage
Caça às bruxas e estimativas históricas English Heritage — Mitos e fatos históricos
English Heritage
Boicote nazista aos estabelecimentos judaicos Museu Memorial do Holocausto — 1933
Enciclopédia do Holocausto
Genocídio contra os yazidis ONU — Investigações sobre Sinjar
United Nations in Iraq
Perseguição à comunidade bahá'í Human Rights Watch — Irã
HRW
Discriminação racial e religiosa no Brasil Lei nº 7.716/1989 — Texto atualizado
Portal da Câmara dos Deputados
Bibliografia complementar: Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo; Albert Bandura, Moral Disengagement; Henri Tajfel, Human Groups and Social Categories; Theodor Adorno e colaboradores, The Authoritarian Personality; Silvia Federici, Calibã e a Bruxa; Carlo Ginzburg, História Noturna; e Christopher Browning, Ordinary Men.
Conteúdo autoral, histórico, educativo e reflexivo. Reprodução mediante autorização ou com atribuição expressa de autoria e fonte. Não substitui orientação jurídica, avaliação clínica ou estudo especializado dos contextos históricos apresentados.
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